quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Homenagem: Robin Williams e o professor de literatura que sabia a que veio

"Oh, Captain, my Captain".

Robin Williams podia não ser a melhor pessoa do mundo, mas teve no currículo memoráveis obras cinematográficas. Cito as que mais me marcaram: Sociedade dos Poetas Mortos, O Gênio Indomável, Patch Adams, O Homem Bicentenário e Bom Dia, Vietnam.




E dentre as comédias, o gênero pelo qual ele era mais conhecido, as que mais curti foram: Uma Babá quase perfeita, Jumanji, A Gaiola das Loucas e Uma noite no Museu.

Além disso, Williams era ótimo dublador e imitador, daí impossível não lembrar dele como o gênio da lâmpada em Alladin e o Ramon em Happy Feet.

Sim, ele vai fazer falta.

Para ver a última e marcante cena de Sociedade dos Poetas Mortos clique aqui

Resenha de filme: Livro, amores e ditaduras

Antonio Carlos Ribeiro

O filme Trem noturno para Lisboa (Night Train to Lisbon), dirigido por Bille August, diretor dinamarquês de As melhores intenções e que estreou dia 29 de novembro, mostrando um professor de filosofia, notívago e culto que, ao impedir o suicídio de uma jovem é sugado para dentro de uma trama intensa e atual.

Ao abandoná-lo, ela deixa um casaco, um livro e uma passagem de trem. Ele embarca para Lisboa. A viagem o leva não apenas da Suíça para Portugal, mas para as vidas que fizeram sentido ao participar da resistência, se manifestarem e viverem emoções inusitadas, no fim da mais longa ditadura da Europa moderna, de quase meio século, com a Revolução dos Cravos em 25 de Abril de 1974.



O leitmotiv foi o livro que o fez defrontar-se com a história de um jovem estudante de medicina da Universidade de Coimbra, Amadeu de Almeida Prado – de personalidade densa como a situação histórica, determinado a usar sua formação, condição social e memória para não sucumbir – e a atuação de um colega do curso de Farmácia e da rede de resistência política.

As frases de Prado em seu livro despertam a atenção do professor, pela força que continham, pelo senso prático e pela cosmovisão que mostravam. A viagem não foi apenas do sul ao oeste europeu, mas pelas páginas do livro, que deixaram Raimund Gregorius encantado com a intensidade da vida destes jovens, rompendo com a ideia de ser metódico, culto e às vezes entediante.

O discurso de Prado na formatura da escola provoca reações claras de reprovação dos que deixaram o auditório, do padre Bartolomeu (Christopher Lee) que confirma sua agudeza e capacidade de expressão, e do pai, um juiz e sempre crítico de suas opções. É dessas pessoas que angariam respeito porque rompem paradigmas, amam, sofrem e pagam preços altos, sem perder a dignidade, perturbadoramente íntegra.

Nessas circunstâncias, o professor de Filosofia fica impressionado com garoto genial de 17 anos, que estuda numa escola católica, escreve um diário para não ser engolido pelos dias e discursa na formatura: ‘querias ser imortal? Mas apenas através da morte a vida tem valor’, ‘o que faremos com o tempo que teremos pela frente em aberto e sem forma, leve como uma pluma em sua liberdade e pesado como chumbo em sua incerteza?’

‘É um desejo, um sonho nostálgico, voltar a um determinado ponto da vida e poder tomar um rumo completamente diferente daquele que fez de nós quem somos’, filosofa o jovem médico, ‘estamos fazendo o bastante?’ e ‘estamos lutando pela vida em sua plenitude?’, ‘Se é verdade que vivemos apenas uma parte da vida que há em nós, o que acontece com o resto?’ Seus gritos arrancam do tempo as respostas que este reluta em dar.

Depois de desatar os nós da trama, clarear as reviravoltas existenciais e entender as loucuras das paixões, Gregorius desabafa para Martina, a oftalmologista que prescreve seu novo óculos: ‘Ele fala de coisas que sempre me preocuparam por anos’, ‘suas palavras e seu mundo são tão fortes que fazem o meu parecer insignificante’ e ‘eles viveram’.

Nos entrecortes, algumas cenas são intrigantes, como a que salva a vida do ‘carniceiro de Lisboa’ e é hostilizado pela vizinhança. Quando a circunstância o coloca diante deste dilema, ele opta por não se trair. É movido por duas paixões, a profissão e o ideal revolucionário, por isso cometer um crime seria negar as duas, e ainda sucumbir àquilo que mais nega. Vive as duas contradições em dilema intelectual, só encontrando respostas na prática.

Outra cena é a da reunião da resistência, a convite do melhor amigo, cuja namorada – Estefânia – sente uma paixão arrebatadora por Prado, a partir de suas intervenções. Sua beleza arrebata sentidos, a faz incisiva ao perguntar sobre o pai – um juiz da ditadura – e a faz movimentar-se com um planeta em torno do sol.

Situações imprevistas, mas possíveis, que trazem uma intensidade, uma catarse e uma autenticidade, pela expressão corajosa dos sentimentos, numa situação já tensa. Isto exige deles nada menos que plena humanidade, assumindo os riscos e a vulnerabilidade, levando muitas vezes a viver o momento (carpe diem – aproveite o dia), do latim da poesia romana, mas pouco interessante para adolescentes.

Um senão grave. Ouvir um filme que transcorre em Portugal com diálogos em inglês é ofensivo aos países lusófonos. Não bastasse o fato da língua portuguesa ser falada nos cinco continentes, é marca fundamental do período das grandes navegações. Se a acusação é a de serviço ao colonialismo, somos absolvidos. As demais também são. É a língua oficial de cinco países, a quinta mais falada no mundo – aproximadamente 268 milhões de pessoas – e a quarta do mundo ocidental. Enquanto os europeus desconhecem a língua que nos trouxeram, finjamos ouvir na língua de Camões o que aparece em inglês. A única falha de August foi grave, sobretudo pela co-produção portuguesa.

No diálogo de despedida com Martina, Gregorius se mostra encantado com a história desses jovens – ‘vidas cheias de vitalidade e intensidade’ – ‘tanta que os separou’, atalha a médica – ‘mas eles viveram’, interrompeu o suíço, julgando ter proferido a frase definitiva. Ela reage, firme e ritmada: ‘Por que você apenas não fica?’ ('Why don't you just stay), criando a possibilidade das paixões do passado no presente.

Para ver o trailer do filme, clique aqui

Para ver o filme completo, clique aqui

*Pós-Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Tocantins (UFT/Capes) - Campus Araguaína - e Pesquisador da Cátedra UNESCO de Leitura

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

ABRALIN em Cena no Tocantins

A ABRALIN EM CENA é um evento permanente na agenda da Associação Brasileira de Linguística (ABRALIN), que será realizado de 4 a 6 de novembro deste ano na Universidade Federal do Tocantins (UFT), no campus de Araguaína. A ABRALIN EM CENA NO TOCANTINS é promovida pelo Programa de Pós-Graduação em Letras: Ensino de Língua e Literatura (PPGL) e pelas Licenciaturas em Letras.

O objetivo é reunir estudiosos em torno de temas como Aquisição da Linguagem, Estudos do Discurso, Estudos do Léxico, Fonética e Fonologia, Linguística e Cognição, Linguística Histórica, Linguística Textual, Morfologia, Pragmática, Psicolinguística, Semântica, Semiótica, Sintaxe, Sociolinguística e Dialetologia, promovendo o diálogo entre a academia e as escolas de educação básica, especialmente na Região Norte do país, ainda marcada pela morosidade na produção científica com impacto social, inclusive nos estudos linguísticos. Veja os detalhes: 


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Cultura: Furtado, a bolinha de papel e outros negócios do jornalismo brasileiro

'O Mercado de Notícias', baseado em um texto de 1625, mistura peça teatral e depoimentos de 13 jornalistas, que discutem a qualidade do que é produzido na mídia brasileira. O filme de Furtado é uma defesa da atividade jornalística, do bom jornalismo, sem o qual não há democracia.

Redação RBA / Foto: Fábio Rebelo/Divulgação

Em 1625, o dramaturgo inglês Ben Jonson escreveu a peça The Staple of News, sobre uma atividade que começava a nascer: o jornalismo impresso. O texto jamais havia sido traduzido para o português, até que o cineasta gaúcho Jorge Furtado o descobriu e decidiu, mais que traduzir, levá-lo aos palcos e cinemas. Diretor de Ilha das Flores, O Homem que Copiava, Meu Tio Matou um Cara e de Saneamento Básico, Furtado lança nesta quinta-feira (7) o documentário O Mercado de Notícias, baseado na peça inglesa para discutir a qualidade do jornalismo praticado no Brasil.



Furtado chamou um time de 13 profissionais da imprensa que admira para dividir com o espectador reflexões sobre a profissão, as mudanças na maneira de consumir e produzir notícias, o futuro do jornalismo e casos esdrúxulos da cobertura política brasileira. O cineasta faz, por exemplo, uma reconstituição inédita do episódio da bolinha de papel jogada em Serra, na campanha de 2010. O filme faz um estudo do fato a partir do olhar de cinco câmeras de TV, que captaram a cena de diferentes ângulos e permite que se chegue a 99% de certeza sobre a origem do arremesso que levou o então candidato a uma teatral tomografia. E observa que nenhum veículo de comunicação foi atrás de investigar o 1% de probabilidade que faltou para responsabilizar um integrante da equipe de segurança do próprio candidato como autor do "atentado".

"Os grandes veículos passaram a agir como partidos de oposição. Neste momento, com a imprensa fragilizada pela concorrência da internet, e nessa nova posição partidarizada, tarefas fundamentais do jornalismo passaram a ser descumpridas. E fiquei com mais vontade ainda de fazer um documentário sobre o assunto. Fui pesquisar a história do jornalismo e num livro do Peter Burke e do Asa Briggs, Uma História Social da Mídia, encontrei menção a uma peça do dramaturgo inglês Ben Jonson chamada O Mercado de Notícias, de 1625. (...) Li e vi uma incrível atualidade no texto do Jonson", afirmou o diretor em entrevista exclusiva à próxima edição da Revista do Brasil.

Depoimentos de Mino Carta, Raimundo Pereira, Bob Fernandes, Luis Nassif, Renata Lo Prete, Leandro Fortes, Janio de Freitas, entre outros profissionais, são intercalados com trechos da peça de Ben Jonson. A maneira como Furtado "costura" teatro e entrevistas evidencia como o texto inglês, de 1625, se mantém extremamente atual no Brasil. O filme trata, de maneira quase didática, das relações dos jornalistas com as fontes de informação, o promíscuo relacionamento entre as redações e os departamentos comerciais dos veículos de comunicação, a responsabilidade dos repórteres e editores e põe em pauta a ética.

"Os jornais repercutem o que interessa a eles, quer dizer, a verdade factual eles não repercutem se não serve ao raciocínio deles. Não é assim na Inglaterra. Não é assim na Itália. Não é assim na França", declara o diretor de redação da CartaCapital, Mino Carta. O jornalista Leandro Fortes concorda: "A imprensa brasileira se aparelhou nos últimos anos como uma atividade partidária de oposição, nitidamente e sem máscaras. Então, para se aparelhar como oposição partidária, necessariamente esses veículos tiveram que deixar de exercer o jornalismo", afirma.

"Acredito que um documentário, para ser durável, deve ser mais que uma notícia , tem que ser útil, no sentido de iluminar um tema, uma atividade, uma época. Deve servir de elemento deflagrador de debates, instigar novas pesquisas, despertar nos espectadores aquilo que o Umberto Eco chama de 'espírito de decifração'. O Mercado de Notícias debate critérios jornalísticos, e este é o seu sentido e o sentido da peça de Jonson. É também uma defesa da atividade jornalística, do bom jornalismo, sem o qual não há democracia", resume Furtado. 

Saiba mais sobre o longa-metragem e confira a entrevista com o cineasta Jorge Furtado na edição 98 da Revista do Brasil. A página de O Mercado de Notícias na internet é uma obra à parte. Contém o texto da peça, original e traduzido, a íntegra dos depoimentos dos 13 jornalistas envolvidos, casos emblemáticos da má qualidade da produção jornalística no país, além de texto escolhidos pelo autor para propor reflexões sobre o tema. Um filme para estudantes, profissionais e consumidores de informação.

Transcrito de http://www.redebrasilatual.com.br/entretenimento/2014/08/documentario-de-jorge-furtado-faz-reflexao-sobre-a-imprensa-2979.html

Se quiser ver o trailer, clique aqui

Se quiser ver comentários sobre o filme, clique aqui

Press Release 002 – 11.08.2014

Destaque
   Novos prédios e rampas de acesso ampliam a unidade da Escola de Medicina Veterinária e Zootecnia - http://bit.ly/1oR34qO

Poesia
   PESSOA - http://bit.ly/VtIBSc

Imagens: o prazer da leitura
   Em busca de mais saber - http://bit.ly/1pxCMzj

Resenha de filme
   A menina que roubava livros - http://bit.ly/1sLPnRC

Artigo
   Lutero e a gestão da educação pública e de qualidade - http://bit.ly/1rFKnd1

Ensaio
   Porque nosso futuro depende de bibliotecas, de leitura e de sonhar acordado - http://bit.ly/1oEjPvi

Informes
   Conferência: O sujeito sem moral: sobre o Pensamento e a banalidade do Mal – UFT - Palmas -
http://bit.ly/1oR48uM

Poesia
   Duplo Sentido – Clarice Lispector - http://bit.ly/1qfsa4b

Grandes Clássicos – Obra Completa
   Fernando Pessoa - http://bit.ly/1oR1NA6

Prof. Dr. Antonio Carlos Ribeiro
Pós-Doutorando – UFT/PPGL
Editor



Se desejar ler os demais Press Release, clique em http://bit.ly/1E35ugR

domingo, 10 de agosto de 2014

Novos prédios e rampas de acesso ampliam a unidade da Escola de Medicina Veterinária e Zootecnia

Antonio Carlos Ribeiro*

Uma visita à unidade da Escola de Medicina Veterinária e Zootecnia (EMVZ), da Universidade Federal do Tocantins (UFT, Campus de Araguaína, faz saltar aos olhos as mudanças em andamento. Além dos diversos canteiros de obras, as rampas interligam as unidades e planificam o acesso aos setores, coordenações, salas de aulas, bibliotecas, auditórios e laboratórios, obras financiadas com recursos do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). 

Para entendermos a geografia da unidade da EMVZ, que compreende os prédios herdados da UNITINS, o Campus Agrostológico e os Laboratórios de Solos, de Fertilidade do Solo e de Adubação de Pastagens, vimos também o galpão de Galinha Caipira, guiados pelo Professor Antonio Clementino. Veja os avanços conquistados nesta unidade da UFT, campus Araguaína:

  
Visão das antenas de internet na Escola de Medicina Veterinária e Zootecnia



Área onde ficam as antenas de internet - a nova passarela que liga o setor administrativo à antiga biblioteca e sala de docentes - a cantina e a área de lazer dos discentes do Recanto 3, em construção 



Prédio onde se localiza a antiga biblioteca e a sala dos docentes, que foi construído pela EMGOPA, do estado do Goiás, que depois da divisão passou para a UNITINS e em 2003 passou para a UFT



Visão do Campo Agrostológico e do Laboratório de Solos, coordenados pelo Prof. Dr. Antonio Clementino dos Santos



Área do Campo Agrostológico - onde se encontram cerca de 50 espécies de forrageiras, com predominância de pasto e algumas espécies medicinais



Compostagem, construída a cada semestre pelos alunos da disciplina Fertilidade do Solo e Adubação de Pastagens, a partir do aproveitamento dos resíduos orgânicos produzidos



Espécies de forrageiras presentes no Campo Agrostológico - ao centro a palma - à direita a Leucena e à esquerda a Gliricidia



Pesquisa com galinha caipira, no galpão coberto com palha do babaçú, ao lado do campo agrostológico



Detalhes do galpão onde se desenvolve a pesquisa com galinha caipira



Sala de Estudo dos alunos-pesquisadores da Linha de Pesquisa Relação Solo-Planta-Animal, no Laboratório de Solos

*Pós-Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Tocantins (UFT/Capes) - Campus Araguaína - e Pesquisador da Cátedra UNESCO de Leitura

sábado, 9 de agosto de 2014

PESSOA



Outra pessoa
Que não seja Fernando
Pode ser
Um heterônimo
Que bom seria
Se toda pessoa
Com outro nome
Fosse um pouquinho
Fernando
Em Pessoa
Bier*

*Augusto Franke Bier é jornalista, chargista, cartunista e poeta, atua na imprensa gaúcha e dirige o Museu da Comunicação Social Hipólito José da Costa, em Porto Alegre (RS)

Resenha de filme: O olhar que encanta até a morte

Antonio Carlos Ribeiro*

O filme A menina que roubava livros (The Book Thief. Dir. Brian Percival, com Geoffrey Rush, Emily Watson, Sophie Nélisse, Ben Schnetzer e Nico Liersch. Drama. EUA /Alemanha, 2014. 131 min) é o tipo de filme que exige sensibilidade, inteligência e cultura histórica, até por sua simplicidade. O pano de fundo é uma pequena cidade da Alemanha no início da Segunda Guerra Mundial. Uma família errante foge da fúria nazista e a menina é entregue a um casal de pais adotivos, financiados pelo governo alemão.



A trama gira em torno de uma menina chamada Liesel Meminger, que vive nos arredores de Munique e furta livros. Com o apoio de seu pai adotivo, ela aprende a ler escrevendo nas paredes do porão da casa e a partilhar livros, incluindo sua leitura com amigos, como um rapaz judeu que lá mora clandestinamente. Resiste à subserviência da educação da época e sofre hostilização dos colegas na escola. No tempo que sobra, ela lê, escreve, estuda, entrega a roupa lavada e passada pela mãe adotiva, e brinca com o colega Rudy.

A narrativa é feita pela morte, de quem conquista a atenção por causa de sua criatividade diante das situações de horror, apesar de sua monumental presença no nazismo. Filha de mãe comunista e perseguida pelo governo nazista, de quem herdou a sensibilidade e a coragem para posicionar-se, Liesel carrega essa consciência crítica potencializada pela leitura, pela qual ingressa na pequena fatia de seu povo que resistiu ao nazismo.

A morte do irmãozinho na ida para a casa da família no subúrbio, leva-a a encontrar na neve um livro perdido pelo coveiro, fazendo-a retomar a sina do amor pela leitura, se descobrir parte dos seres humanos entre os pobres, tão vulneráveis aos ataques da força aérea dos aliados quanto aos soldados e oficiais nazistas, sempre ameaçando, espancando, conduzindo colunas de presos e matando, em nome do regime que lhes exige obediência cega.

Perturbada com o terror e os pesadelos, o demorado e relutante apoio da madrasta e a conivência do pai adotivo, ela enfrenta a saudade da mãe e do irmão. As lições de letramento e a leitura a fazem canalizar as urgências para a literatura, sobretudo em tempos de incêndios de livros – um fato paradoxal numa Reichkultur (cultura rica) – em que ela os salva assim como as pessoas comuns, das mais simples até aos intelectuais, salvam judeus, comunistas e homossexuais do morticínio bestial.

Sua sensibilidade eufemística e terna a leva a ler e mesmo a furtar livros na rica biblioteca do prefeito, à qual chegou pelas mãos da Frau Bürgemeister (esposa do prefeito), por tê-la identificado como a última pessoa a deixar a queima de livros dos cidadãos comuns, um espetáculo incendiário, precedido de discurso, palavras de ordem e palmas das mãos estendidas ao alto. Um tal amor pela leitura não a leva apenas a furtar e carregá-los incandescentes sob o casaco, mas certamente a lamentar a destruição deste tesouro da cidadania pelo mesmo regime ditatorial que saqueou bibliotecas e museus, na expectativa escatológica do Drittes Reich (Terceiro Reino) de que duraria mil anos. E não apenas os 12 a que sobreviveu.

O livro e filme estabelecem um conflito, possivelmente não percebido pelos alemães por causa das condições de miserabilidade, contra a qual o regime criou inimigos e estimulou o ódio. A realidade do culto a Hitler, a fragilização cultural extrema e a até a subserviência das igrejas da época denunciam o volume de forças que o nazismo conseguiu arregimentar. Lembra a ‘aparência do mal’, frente à qual Lutero mandou que os cristãos se persignassem três vezes – pouco mais de quatro séculos antes, no mesmo lugar – mas que não escaparam incólumes ao olhar da menina, que encantou até a morte.

Para ver o trailer clique: aqui

Para assistir o filme completo clique: aqui

*Pós-Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Tocantins (UFT/Capes) - Campus Araguaína - e Pesquisador da Cátedra UNESCO de Leitura

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Artigo: Lutero e a gestão da educação pública de qualidade

Antonio Carlos Ribeiro*

O sistema educacional alemão é devedor em grande parte à Reforma Protestante do Século XVI, circunstância em que Lutero deixa o centro da cena e cede espaço aos educadores. Neste caso o espaço que seria ocupado por ele é assumido por seu amigo e companheiro Filipe Melanchthon, também teólogo, músico e pedagogo, possivelmente mais culto que Lutero mas não ordenado, a quem a tradição luterana deve a redação da Confessio Augustana (Confissão de Augsburg). O principal documento doutrinal dos luteranos foi escrito por um leigo.

Educação não era o campo intelectual em que Lutero se movia. Sequer teve a preocupação em desenvolver uma teoria da educação em perspectiva cristã, mas o que seguramente quis foi motivar a sociedade a empenhar-se por uma educação formal de qualidade, baseado na compreensão de que Deus atua no mundo através dos dois governos.

Como na teologia, na Igreja e na relação de influência entre os príncipes, em que Lutero tinha Melanchthon como pessoa de sua íntima confiança, na educação essa situação se invertia. Nesta Lutero falava em nome do evangelho para sustentar empreendimentos humanos que na Baixa Saxônia ficaram a cargo de Melanchthon. O liceu (Leucorea), a universidade e as escolas de ensino fundamental sofrem a grande influência e política (liderança na polis) do seu amigo pedagogo, responsável pela introdução de estudos dos clássicos gregos e latinos na universidade, rompendo com a perspectiva da escolástica, que submetia tudo ao crivo do poder eclesial.


Foto do prédio da Halle Universität

Sob a iniciativa e liderança de Melanchton, o Conselho da cidade de Nürnberg fundou o Ginásio de Egídio, além das três escolas de latim já existentes na cidade. Como as escolas não constituem exclusivamente de prédios, mas contam com professores que instrumentalizam esses equipamentos, assim tarefas organizativas e de conteúdos culturais próprias das escolas secundárias foram também confiadas a este pedagogo, que acentuava as convergências entre humanismo e luteranismo.

Lutero prescreve as normas fundamentais para organização das escolas, no entanto é Melanchthon, seu ‘ministro da educação’ quem escreveu manuais escolares, organizou o sistema escola de Saxe, redigiu juntamente com Lutero as ‘Diretivas aos Inspetores Escolares’ e o livro ‘Visita das Escolas’, reorganizou as universidades de Marburg, Königsberg, Iena, Helsmtadt, Dorpat, Leipzig e Heidelberg, e dava orientação e assistência aos mestre luteranos da Germânia.

Outro colaborador de Lutero foi Johannes Bugenhagen, o pastor da Stadtkirche (Igreja da Cidade), conhecido como ‘Doctor Pomeranus’, que foi responsável pela inspiração de uma série de ordenamentos municipais no norte da Alemanha. Esse conjunto de Estatutos religiosos de diferentes cidades recomendam e ordenam o surgimento de escolas públicas. Bugenhagen, que atuou como pastor luterano a partir de 1520, se torna o mais ardoroso defensor da Reforma da Igreja e, por sua atuação na educação se tornou conhecido como ‘Pai da Escola Primária Pública da Alemanha’.

As preocupações da época acompanham questões como: ‘o que deve ser ensinado às crianças e aos jovens?’, ‘de que forma esse ensino deve ser ministrado?’, ‘como a escola deve ser financiada?’, ‘quem e como devem ser os mestres?’ e ‘onde e em que período as crianças devem estudar?’

As outras questões são de natureza filosófica e teológica. Ao apresentar uma nova proposta para o currículo escolar, lidando com as críticas de que este se baseava nas obras de Aristóteles, que Lutero julgava inapropriado por ser a mesma proposta em que se estruturava o sistema de conventos e mosteiros, em moldes medievais, já sofrendo os efeitos do Renascimento e da própria Reforma, mas ‘blindado’ por estruturas e orientação eclesial, que retardavam ou mesmo impediam o desabrochar de uma nova era.

Outra ênfase significativa era o aprendizado de línguas, que para o reformador, provoca mudanças: ‘onde, porém, há conhecimento de línguas, aí as coisas se desenvolvem com frescor e vigor, e a Escritura é trabalhada; aí a fé se encontra sempre de forma nova por meio de outras e mais outras palavras e obras”, disse Lutero. Assim, o ensino de línguas clássicas se tornou uma consequência dos ideais do movimento humanista, com a propagação do Renascimento na Alemanha.

O grande avanço se dá quando, após longo período na Idade Média a educação se baseava nos conteúdos do trivium e do quadrivium, ensinando as sete artes liberais, e sofre essa mudança na Alemanha, de acordo com a concepção humanista, baseada na educação e nos studia humanitatis (estudo de humanidades) abrangendo disciplinas como Gramática, Retórica, Poética, História e Filosofia Moral, sendo complementado com matemática, astronomia, ciências, música, dança e outras artes. Assim, a contribuição luterana à cultura europeia, segue os ventos de mudança de seu tempo.

*Pós-Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Tocantins (UFT/Capes) - Campus Araguaína - e Pesquisador da Cátedra UNESCO de Leitura

Ensaio: Porque nosso futuro depende de bibliotecas, de leitura e de sonhar acordado



Neil Gaiman

É importante para as pessoas dizerem de que lado elas estão e porque, e se elas podem ou não ser tendenciosas. Um tipo de declaração de interesse dos membros. Então eu estarei conversando com vocês sobre leitura. Direi à vocês que as bibliotecas são importantes. Vou sugerir que ler ficção, que ler por prazer, é uma das coisas mais importantes que alguém pode fazer. Vou fazer um apelo apaixonado para que as pessoas entendam o que as bibliotecas e os bibliotecários são e para que preservem ambos.

E eu sou óbvia e enormemente tendencioso: eu sou um escritor, muitas vezes um autor de ficção. Escrevo para crianças e adultos. Por cerca de 30 anos eu tenho ganhado a minha vida através das minhas palavras, principalmente por inventar as coisas e escrevê-las. Obviamente está em meu interesse que as pessoas leiam, que elas leiam ficção, que bibliotecas e bibliotecários existam para nutrir amor pela leitura e lugares onde a leitura possa ocorrer.

Então sou tendencioso como escritor. Mas eu sou muito, muito mais tendencioso como leitor. E eu sou ainda mais tendencioso enquanto cidadão britânico.

E estou aqui dando essa palestra hoje a noite sob os auspícios da Reading Agency: uma instituição filantrópica cuja missão é dar a todos as mesmas oportunidades na vida, ajudando as pessoas a se tornarem leitores entusiasmados e confiantes. Que apoia programas de alfabetização, bibliotecas e indivíduos e arbitrária e abertamente incentiva o ato da leitura. Porque, eles nos dizem, tudo muda quando lemos.

E é sobre essa mudança e este ato de leitura que quero falar hoje a noite. Eu quero falar sobre o que a leitura faz. O porquê de ela ser boa.

Uma vez eu estava em Nova York e ouvi uma palestra sobre a construção de prisões particulares – uma ampla indústria em crescimento nos Estados Unidos. A indústria de prisões precisa planejar o seu futuro crescimento – quantas celas precisarão? Quantos prisioneiros teremos daqui 15 anos? E eles descobriram que poderiam prever isso muito facilmente, usando um algoritmo bastante simples, baseado em perguntar a porcentagem de crianças de 10 e 11 anos que não conseguiam ler. E certamente não conseguiam ler por prazer.

Não é um pra um: você não pode dizer que uma sociedade alfabetizada não tenha criminalidade. Mas existem correlações bastante reais.

E eu acho que algumas destas correlações, a mais simples, vem de algo muito simples. As pessoas alfabetizadas leem ficção.

A ficção tem duas utilidades. Primeiramente, é uma droga que é uma porta para leituras. O desejo de saber o que acontece em seguida, de querer virar a página, a necessidade de continuar, mesmo que seja difícil, porque alguém está em perigo e você precisa saber como tudo vai acabar… Este é um desejo muito real. E te força a aprender novos mundos, a pensar novos pensamentos, a continuar. Descobrir que a leitura por si é prazerosa. Uma vez que você aprende isso, você está no caminho para ler de tudo. E a leitura é a chave. Houve um burburinho brevemente há alguns anos atrás sobre a idéia de que estávamos vivendo em um mundo pós-alfabetizado, no qual a habilidade de fazer sentido através de palavras escritas estava de alguma forma redundante, mas esses dias acabaram: as palavras são mais importantes do que jamais foram: nós navegamos o mundo com palavras, e uma vez que o mundo desliza para a web, precisamos seguir, comunicar e compreender o que estamos lendo. As pessoas que não podem entender umas às outras não podem trocar idéias, não podem se comunicar e apenas programas de tradução vão tão longe.

A forma mais simples de ter certeza de que educamos crianças alfabetizadas é ensiná-los a ler, e mostrarmos a eles que a leitura é uma atividade prazerosa. E isso significa, na sua forma mais simples, encontrar livros que eles gostem, dar a eles acesso a estes livros e deixar que eles os leiam.

Eu não acho que exista algo como um livro ruim para crianças. Vez e outra se torna moda entre alguns adultos escolher um subconjunto de livros para crianças, um gênero, talvez, ou um autor e declará-los livros ruins, livros que as crianças devem parar de ler. Eu já vi isso acontecer repetidamente; Enid Blyton foi declarado um autor ruim, RL Stine também, assim como dúzias de outros. Quadrinhos tem sido acusados de promover o analfabetismo.

É tosco. É arrogante e é burro. Não existem autores ruins para crianças, que as crianças gostem e querem ler e buscar, por que cada criança é diferente. Eles podem encontrar as histórias que eles precisam, e eles levam a si mesmos nas histórias. Uma idéia banal e desgastada não é banal nem desgastada para eles. Esta é a primeira vez que a criança a encontrou. Não desencoraje uma criança de ler porque você acha que o que eles estão lendo é errado. A ficção que você não gosta é uma rota para outros livros que você pode preferir. E nem todo mundo tem o mesmo gosto que você.

Adultos bem intencionados podem facilmente destruir o amor de uma criança pela leitura: parar de ler pra eles o que eles gostam, ou dar a eles livros ‘chatos mas que valem a pena’ que você gosta, os equivalentes “melhorados” da literatura Vitoriana do século XXI. Você acabará com uma geração convencida de que ler não é legal e pior ainda, desagradável.

Precisamos que nossas crianças entrem na escada da leitura: qualquer coisa que eles gostarem de ler irá movê-las, degrau por degrau, à alfabetização. (Além disso, não faça o que eu fiz quando a minha filha de 11 anos estava gostando de ler RL Stine, que foi pegar uma cópia de Carrie do Stephen King e dizer que se você gosta deste, adorará isto! Holly não leu nada além de histórias seguras de colonos em pradarias pelo resto de sua adolescência e até hoje me dá olhares tortos quando o nome de Stephen King é mencionado).

E a segunda coisa que a ficção faz é construir empatia. Quando você assiste TV ou vê um filme, você está olhando para coisas acontecendo a outras pessoas. Ficção de prosa é algo que você constrói a partir de 26 letras e um punhado de sinais de pontuação, e você, você sozinho, usando a sua imaginação, cria um mundo e o povoa e olha através dos olhos de outros. Você sente coisas, visita lugares e mundos que você jamais conheceria de outro modo. Você aprende que qualquer outra pessoa lá fora é um eu, também. Você está sendo outra pessoa e quando você volta ao seu próprio mundo, você estará levemente transformado.

Empatia é uma ferramenta para tornar pessoas em grupos, que nos permite que funcionemos como mais do que indivíduos auto-obcecados.

Você também está descobrindo algo enquanto lê que é de vital importância para fazer o seu caminho no mundo. E é isto:

O mundo não precisa ser assim. As coisas podem ser diferentes.

Eu estive na China em 2007 na primeira convenção de ficção científica e fantasia aprovada pelo partido na história da China. E em algum momento eu tomei um alto oficial de lado e perguntei a ele “Por que? A ficção científica foi reprovada por tanto tempo. Por que isso mudou?”. É simples, ele me disse. Os chineses eram brilhantes em fazer coisas se outras pessoas trouxessem os planos para eles. Mas eles não inovavam e não inventavam. Eles não imaginavam. Então eles mandaram uma delegação para os Estados Unidos, para a Apple, para a Microsoft, para o Google, e eles perguntaram às pessoas de lá que estavam inventando seu próprio futuro. E eles descobriram que todos eles leram ficção científica quando eram meninos e meninas. A ficção pode te mostrar um outro mundo. Pode te levar para um lugar que você nunca esteve. E uma vez que você tenha visitado outros mundos, como aqueles que comeram a fruta da fada, você pode nunca mais ficar completamente satisfeito com o mundo no qual você cresceu. Descontentamento é uma coisa boa: pessoas descontentes podem modificar e melhorar o mundo, deixá-lo melhor, deixá-lo diferente.E enquanto ainda estamos nesse assunto, eu gostaria de dizer algumas palavras sobre escapismo. Eu ouço o termo utilizado por aí como se fosse uma coisa ruim. Como se ficção “escapista” fosse um ópio barato utilizado pelos confusos e pelos tolos e pelos desiludidos e a única ficção que seja válida, para adultos ou crianças é a ficção mimética, espelhando o pior do mundo em que o leitor ou a leitora se encontra.

Se você estivesse preso em uma situação impossível, em um lugar desagradável, com pessoas que te quisessem mal, e alguém te oferecesse um escape temporário, por que você não ia aceitar isso? E ficção escapista é apenas isso: ficção que abre uma porta, mostra o sol lá fora, te dá um lugar para ir onde você esteja no controle, esteja com pessoas com quem você queira estar (e livros são lugares reais, não se enganem sobre isso); e mais importante, durante o seu escape, livros também podem te dar conhecimento sobre o mundo e o seu predicamento, te dar armas, te dar armaduras: coisas reais que você pode levar de volta para a sua prisão. Habilidades e conhecimento e ferramentas que você pode utilizar para escapar de verdade.

Como JRR Tolkien nos lembrou, as únicas pessoas que fazem injúrias contra o escape são prisioneiros.

Outra forma de destruir o amor de uma criança pela leitura, claro, é se assegurar de que não existam livros de nenhum tipo por perto. E não dar a elas nenhum lugar para que leiam estes livros. Eu tive sorte. Eu tive uma biblioteca local excelente enquanto eu cresci. Eu tive o tipo de pais que podiam ser persuadidos a me deixar na biblioteca no caminho do trabalho deles nas férias de verão, e o tipo de bibliotecários que não se importavam que um menino pequeno e desacompanhado ficasse na biblioteca das crianças todas as manhãs e ficasse mexendo no catálogo de cartões, procurando por livros com fantasmas ou mágica ou foguetes neles, procurando por vampiros ou detetives ou bruxas ou fantasias. E quando eu terminei de ler a biblioteca de crianças eu comecei a de adultos.

Eles eram ótimos bibliotecários. Eles gostavam de livros e eles gostavam dos livros que estavam sendo lidos. Eles me ensinaram como pedir livros das outras bibliotecas em empréstimo inter-bibliotecas. Eles não eram arrogantes em relação a nada que eu lesse. Eles pareciam apenas gostar do fato de existir esse menininho de olhos arregalados que amava ler, e conversariam comigo sobre os livros que eu estava lendo, achariam pra mim outros livros em uma série, eles ajudariam. Eles me tratavam como outro leitor – nem mais, nem menos – o que significa que eles me tratavam com respeito. Eu não estava acostumado a ser tratado com respeito aos oito anos de idade.

Mas as bibliotecas tem a ver com liberdade. A liberdade de ler, a liberdade de ideias, a liberdade de comunicação. Elas tem a ver com educação (que não é um processo que termina no dia que deixamos a escola ou a universidade), com entretenimento, tem a ver com criar espaços seguros e com o acesso à informação.

Eu me preocupo que no século XXI as pessoas entendam errado o que são bibliotecas e qual é o propósito delas. Se você perceber uma biblioteca como estantes com livros, pode parecer antiquado e datado em um mundo no qual a maioria, mas não todos, os livros impressos existem digitalmente. Mas pensar assim é errar o ponto fundamentalmente.

Eu acho que tem a ver com a natureza da informação. A informação tem valor, e a informação certa tem um enorme valor. Por toda a história humana, nós vivemos em escassez de informação e ter a informação desejada era sempre importante, e sempre valia alguma coisa: quando plantar sementes, onde achar as coisas, mapas e histórias e estórias – eles eram sempre bons para uma refeição e companhia. Informação era uma coisa valorosa, e aqueles que a tinham ou podiam obtê-la podiam cobrar por este serviço.

Nos últimos anos, nos mudamos de uma economia de escassez da informação para uma dirigida por um excesso de informação. De acordo com o Eric Schmidt do Google, a cada dois dias agora a raça humana cria tanta informação quanto criávamos desde o início da civilização até 2003. Isto é cerca de cinco exobytes de dados por dia, para vocês que mantém a contagem. O desafio se torna não encontrar aquela planta escassa crescendo no deserto, mas encontrar uma planta específica crescendo em uma floresta. Precisaremos de ajuda para navegar nesta informação e achar a coisa que precisamos de verdade.

Bibliotecas são lugares que pessoas vão para obter informação. Livros são apenas a ponta do iceberg da informação: eles estão lá, e bibliotecas podem fornecer livros gratuitamente e legalmente. Crianças estão emprestando livros de bibliotecas hoje mais do que nunca – livros de todos os tipos: de papel e digital e em áudio. Mas as bibliotecas também são, por exemplo, lugares onde pessoas que não tem computadores, que podem não ter conexão à internet, podem ficar online sem pagar nada: o que é imensamente importante quando a forma que você procura empregos, se candidata para entrevistas ou aplica para benefícios está cada vez mais migrando para o ambiente exclusivamente online. Bibliotecários podem ajudar estas pessoas a navegar neste mundo.

Eu não acredito que todos os livros irão ou devam migrar para as telas: como Douglas Adams uma vez me falou, mais de 20 anos antes do Kindle aparecer, um livro físico é como um tubarão. Tubarões são velhos: existiam tubarões nos oceanos antes dos dinossauros. E a razão de ainda existirem tubarões é que tubarões são melhores em serem tubarões do que qualquer outra coisa que exista. Livros físicos são durões, difíceis de destruir, resistentes à banhos, operam a luz do sol, ficam bem na sua mão: eles são bons em serem livros, e sempre existirá um lugar para eles. Eles pertencem às bibliotecas, bem como as bibliotecas já se tornaram lugares que você pode ir para ter acesso à ebooks, e audio-livros e DVDs e conteúdo na web.

Uma biblioteca é um lugar que é um repositório de informação e dá a cada cidadão acesso igualitário a ele. Isso inclui informação sobre saúde. E informação sobre saúde mental. É um espaço comunitário. É um lugar de segurança, um refúgio do mundo. É um lugar com bibliotecários. Como as bibliotecas do futuro serão é algo que deveríamos estar imaginando agora.

Alfabetização é mais importante do que nunca, nesse mundo de mensagens e e-mail, um mundo de informação escrita. Precisamos ler e escrever, precisamos de cidadãos globais que possam ler confortavelmente, compreender o que estão lendo, entender as nuances e se fazer entender.

As bibliotecas realmente são os portais para o futuro. É tão lamentável que, ao redor do mundo, nós observemos autoridades locais apropriarem-se da oportunidade de fechar bibliotecas como uma maneira fácil de poupar dinheiro, sem perceber que eles estão roubando do futuro para serem pagos hoje. Eles estão fechando os portões que deveriam ser abertos.

De acordo com um estudo recente feito pela Organisation for Economic Cooperation and Development, a Ingaterra é o “único país onde o grupo de mais idade tem mais proficiência tanto em alfabetização quanto em capacidade de usar ou entender as técnicas numéricas da matemática do que o grupo mais jovem, depois de outros fatores, tais como gênero, perfis sócio-econômicos e tipo de ocupações levados em consideração”.

Colocando de outro modo, nossas crianças e netos são menos alfabetizados e menos capazes de utilizar técnicas de matemática do que nós. Eles são menos capazes de navegar o mundo, de entendê-lo e de resolver problemas. Eles podem ser mais facilmente enganados e iludidos, serão menos capazes de mudar o mundo em que se encontram, ser menos empregáveis. Todas essas coisas. E como um país, a Inglaterra ficará para trás em relação a outras nações desenvolvidas porque faltará mão de obra especializada.

Livros são a forma com a qual nós nos comunicamos com os mortos. A forma que aprendemos lições com aqueles que não estão mais entre nós, que a humanidade se construiu, progrediu, fez com que o conhecimento fosse incremental ao invés de algo que precise ser reaprendido, de novo e de novo. Existem contos que são mais velhos que alguns países, contos que sobreviveram às culturas e aos prédios nos quais eles foram contados pela primeira vez.

Eu acho que nós temos responsabilidades com o futuro. Responsabilidades e obrigações com as crianças, com os adultos que essas crianças se tornarão, com o mundo que eles habitarão. Todos nós – enquanto leitores, escritores, cidadãos – temos obrigações. Pensei em tentar explicitar algumas dessas obrigações aqui.

Eu acredito que temos uma obrigação de ler por prazer, em lugares públicos e privados. Se lermos por prazer, se outros nos verem lendo, então nós aprendemos, exercitamos nossas imaginações. Mostramos aos outros que ler é uma coisa boa.

Temos a obrigação de apoiar bibliotecas. De usar bibliotecas, de encorajar outras pessoas a utilizarem bibliotecas, de protestar contra o fechamento de bibliotecas. Se você não valoriza bibliotecas então você não valoriza informação ou cultura ou sabedoria. Você está silenciando as vozes do passado e você está prejudicando o futuro.

Temos a obrigação de ler em voz alta para nossas crianças. De ler pra elas coisas que elas gostem. De ler pra elas histórias das quais já estamos cansados. Fazer as vozes, fazer com que seja interessante e não parar de ler pra elas apenas porque elas já aprenderam a ler sozinhas. Use o tempo de leitura em voz alta para um momento de aproximação, como um tempo onde não se fique checando o telefone, quando as distrações do mundo são postas de lado.

Temos a obrigação de usar a linguagem. De nos esforçarmos: descobrir o que as palavras significam e como empregá-las, nos comunicarmos claramente, de dizer o que estamos querendo dizer. Não devemos tentar congelar a linguagem, ou fingir que é uma coisa morta que deve ser reverenciada, mas devemos usá-la como algo vivo, que flui, que empresta palavras, que permite que significados e pronúncias mudem com o tempo.

Nós escritores – e especialmente escritores para crianças, mas todos os escritores – temos uma obrigação com nossos leitores: é a obrigação de escrever coisas verdadeiras, especialmente importantes quando estamos criando contos de pessoas que não existem em lugares que nunca existiram – entender que a verdade não está no que acontece mas no que ela nos diz sobre quem somos. A ficção é a mentira que diz a verdade, afinal. Temos a obrigação de não entediar nossos leitores, mas fazê-los sentir a necessidade de virar as páginas. Uma das melhores curas para um leitor relutante, afinal, é uma estória que eles não são capazes de parar de ler. E enquanto nós precisamos contar a nossos leitores coisas verdadeiras e dar a ele armas e dar a eles armaduras e passar a eles qualquer sabedoria que recolhemos em nossa curta estadia nesse mundo verde, nós temos a obrigação de não pregar, não ensinar, não forçar mensagens e morais pré-digeridas goela abaixo em nossos leitores como pássaros adultos alimentando seus bebês com vermes pré-mastigados; e nós temos a obrigação de nunca, em nenhuma circunstância, escrever nada para crianças que nós mesmos não gostaríamos de ler.

Temos a obrigação de entender e reconhecer que enquanto escritores para crianças nós estamos fazendo um trabalho importante, porque se nós estragarmos isso e escrevermos livros chatos que distanciam as crianças da leitura e de livros, nós estaremos menosprezando o nosso próprio futuro e diminuindo o deles.

Todos nós – adultos e crianças, escritores e leitores – temos a obrigação de sonhar acordado. Temos a obrigação de imaginar. É fácil fingir que ninguém pode mudar coisa alguma, que estamos num mundo no qual a sociedade é enorme e que o indivíduo é menos que nada: um átomo numa parede, um grão de arroz num arrozal. Mas a verdade é que indivíduos mudam o seu próprio mundo de novo e de novo, indivíduos fazem o futuro e eles fazem isso porque imaginam que as coisas podem ser diferentes.

Olhe à sua volta: eu falo sério. Pare por um momento e olhe em volta da sala em que você está. Eu vou dizer algo tão óbvio que a tendência é que seja esquecido. É isto: que tudo o que você vê, incluindo as paredes, foi, em algum momento, imaginado. Alguém decidiu que era mais fácil sentar numa cadeira do que no chão e imaginou a cadeira. Alguém tinha que imaginar uma forma que eu pudesse falar com vocês em Londres agora mesmo sem que todos ficássemos tomando uma chuva. Este quarto e as coisas nele, e todas as outras coisas nesse prédio, esta cidade, existem porque, de novo e de novo e de novo as pessoas imaginaram coisas.

Temos a obrigação de fazer com que as coisas sejam belas. Não de deixar o mundo mais feio do que já encontramos, não de esvaziar os oceanos, não de deixar nossos problemas para a próxima geração. Temos a obrigação de limpar tudo o que sujamos, e não deixar nossas crianças com um mundo que nós desarrumamos, vilipendiamos e aleijamos de forma míope.

Temos a obrigação de dizer aos nossos políticos o que queremos, votar contra políticos ou quaisquer partidos que não compreendem o valor da leitura na criação de cidadãos decentes, que não querem agir para preservar e proteger o conhecimento e encorajar a alfabetização. Esta não é uma questão de partidos políticos. Esta é uma questão de humanidade em comum.

Uma vez perguntaram a Albert Einstein como ele poderia tornar nossas crianças inteligentes. A resposta dele foi simples e sábia. “Se você quer que crianças sejam inteligentes”, ele disse, “leiam contos de fadas para elas. Se você quer que elas sejam mais inteligentes, leia mais contos de fadas para elas”. Ele entendeu o valor da leitura e da imaginação. Eu espero que possamos dar às nossas crianças um mundo no qual elas possam ler, e que leiam para elas, e imaginar e compreender.

Esta é uma versão editada da palestra do Neil Gaiman para a Reading Agency, realizada dia 14 de outubro de 2013 (segunda-feira) no Barbican em Londres. A série anual de palestras da Reading Agency começou em 2012 como uma plataforma para que escritores e pensadores compartilhassem ideias originais e desafiadoras sobre a leitura e as bibliotecas.

Transcrito de http://indexadora.wordpress.com/2013/10/17/neil-gaiman-por-que-nosso-futuro-depende-de-bibliotecas-de-leitura-e-de-sonhar-acordado/

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Informes

Hoje à noite, às 19h, no Auditório do Bloco IV

Conferência
O sujeito sem moral: sobre o Pensamento e a banalidade do Mal
Prof. Dr. Marcelo Andrade



Poesia: Duplo Sentido

Clarice Lispector



      Não te amo mais                                 É tarde demais...       
        Estarei mentindo dizendo que         Sinto, mas tenho que dizer a verdade
Ainda te quero como sempre quis                    Eu te amo!                 
   Tenho certeza que                      E jamais usarei a frase
Nada foi em vão                              Já te esqueci!
Sinto dentro de mim que                  Sinto cada vez mais que 
  Você não significa nada                   Alimento um grande amor
Não poderia dizer mais que                Não poderia dizer mais que
Alimento um grande amor                   Você não significa nada
  Sinto cada vez mais que                  Sinto dentro de mim que
          Já te esqueci!                                Nada foi em vão        
E jamais usarei a frase                       Tenho certeza que
                  Eu te amo!                       Ainda te quero como sempre quis
Sinto, mas tenho que dizer a verdade     Estarei mentindo dizendo que
   É tarde demais...                            Não te amo mais 



Adaptado de: http://prosaeversoentreamigos.blogspot.com.br/2011/12/duplo-sentido-clarice-lispector.html

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Imagem

Quer ser mais denso, profundo, consistente, visível, perceptível?
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Press Release 001 – 04.08.2014

Leituras mil

Através deste instrumento de informação às mídias, divulgamos as atualizações semanais no Blog Leituras mil.

Apresentação
   Quem somos nós
http://bit.ly/1po1u4v

Estrutura
   Expediente
http://bit.ly/1taeF9I

Ensaio
   Leitura correta é ginástica para o cérebro
http://bit.ly/1pAmdlY

Notícia
   Diversidade Cultural e Ensino de Língua Estrangeira - http://bit.ly/1o0cG2i

Bibliotecas
   Biblioteca Virtual - http://bit.ly/1AmyuxW

Grandes Clássicos – Obra Completa
   Machado de Assis - http://bit.ly/1oR1NA6

Imagens: o prazer da leitura
   Crianças e leitura - http://bit.ly/1lrGw5o

Destaque
   Cátedra UNESCO de Leitura destaca - http://bit.ly/1BnKCjE

Artigo
   Lutero e o desenvolvimento da Leitura - http://bit.ly/1kK0c3Q

Ensaio
   Nem vigiar nem punir: o projeto de remissão prisional pela leitura - http://bit.ly/1vVcWcN

Prof. Dr. Antonio Carlos Ribeiro
Pós-Doutorando – UFT/PPGL
Editor



Se desejar ler os demais Press Release, clique em http://bit.ly/1E35ugR

sábado, 2 de agosto de 2014

Resenha de filme: Tarja Branca

Antonio Carlos Ribeiro*

O filme Tarja Branca – a revolução que faltava (Dir. Cacau Rhoden, com Domingos Montagner, Wandi Doratiotto e Antônio Nóbrega – Documentário, Brasil, 2014, 80 min) é composto de depoimentos de pessoas adultas e amadurecidas, de diferentes origens, profissões e gerações que descobriram que os momentos mais felizes, frutíferos e emocionalmente enriquecedores de suas vidas aconteceram quando puderam ‘brincar’.


Esse ato plural, sempre com dimensões sociais – por envolver pessoas, da família, da vizinhança, da escola, do trabalho e de diversas outras dimensões humanas – nos coloca em contato com os momentos mais felizes da nossa infância. Ao revivermos essas emoções, voltam à nossa memória as pessoas mais queridas, que nos amaram da forma menos pretensiosa, com quem partilhamos momentos inesquecíveis e que deixaram marcas indeléveis em nossa personalidade.

Voltar a esses momentos não é ‘perder tempo’, nem ‘desperdiçar energias com as saudades’ e menos ainda ‘remoer fatos do passado’, mas redescobrir o ato de brincar, pelo qual o ser humano adulto reencontra a criança dentro de si, reviver essa forma lúdica de enfrentar o cotidiano e utilizá-la como estratégia para as grandes conquistas, que invariavelmente começam com nossa harmonia e partilha de sentimento e trabalho.

O ato de brincar - dos mais ancestrais da raça humana – embora esquecido na atualidade, nos traz a chave emocional para melhor nos conhecer e nos relacionarmos com ‘os mundos’ à nossa volta. Mas, ainda mais primordial do que o que revela de nós e dos seres humanos, é o que mostra sobre o mundo em que vivemos.

Este documentário da Maria Farinha Filmes, dirigido por Rhoden, discorre e estimula o espírito lúdico, mostrando que em última instância as faces do homo (ser humano) socialis (social), aeconomicus (econômico), politicus (político), faber (produtivo), sapiens (sábio) podem ser regastadas no ludens (lúdico), sem confundir com atos grosseiros, violentos, desrespeitosos, discricionários, arrogantes que mostram à sociedade o homo demens (demente, estúpido).

Como nos ensinou o historiador holandês Johan Huizinga, em seu livro Homo Ludens, “a vida social moderna está sendo cada vez mais fortemente dominada por uma característica que tem alguma coisa em comum com o jogo e dá a ilusão de um fator lúdico fortemente desenvolvido. Julguei poder dar a esta característica o nome de ‘puerilismo’, que me pareceu ser o mais adequado para designar essa mistura de adolescência e barbárie que se tem vindo a estender pelo mundo no decorrer das últimas duas ou três décadas”.

Para ver trailer clique: aqui

Para ver o filme completo, clique aqui

*Pós-Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Tocantins (UFT/Capes) - Campus Araguaína - e Pesquisador da Cátedra UNESCO de Leitura

Cátedra UNESCO de Leitura destaca Observatório de Leitura TO - UFT/CNPq

Registramos o agradecimento do Observatório de Leitura e Inovações Tecnológicas para a Educação - TO, fruto do projeto aprovado no final de 2013 pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pelo destaque concedido no portal do Instituto Interdisciplinar de Leitura - iiLer / Cátedra UNESCO de Leitura (PUC-Rio), consolidando o objetivo do projeto implantado no Campus de Araguaína: divulgar as ações de fomento à leitura no estado do Tocantins.


sexta-feira, 25 de julho de 2014

Artigo: Lutero e o desenvolvimento da leitura

Antonio Carlos Ribeiro*

A ênfase de Lutero na leitura data do fim da idade média e início da moderna, numa Alemanha ainda rural - quando regiões como a Itália e a França se destacavam como berço do Renascimento, das grandes cidades e da cultura. Nesta época, a educação era restrita aos nobres e aos burgueses, e parte significativa da população vivia como os pobres nas florestas. A Europa já tinha cidades e a civilité (civilidade, dos franceses) ou a Kultur (cultura, dos alemães), como explicou Norbert Elias, o sociólogo alemão dos hábitos europeus.

A dificuldade de Lutero com os métodos dos mosteiros o fez pensar nas crianças e jovens como os que devem ser conquistados para a educação. Ele percebeu que os jovens gostam de dançar, cantar e pular em busca do que lhes dê prazer, assim as disciplinas devem ser estudadas de forma prazerosa e lúdica, concluindo que ‘os métodos didáticos devem adaptar-se à natureza das crianças’. O modelo educacional do início do século XVI destinava aos meninos a frequência a uma ou duas horas na escola e a aprendizagem de um ofício. E às meninas, cabia frequentar a escola e cumprir tarefas domésticas.

O século XVI, com o Renascimento e a Reforma como pano de fundo, cria espaço para o crescimento da publicação de livros num ambiente ainda muito marcado pelas relações pessoais com base na oralidade (fala). A intervenção de Lutero levanta questões a esta tradição oral, especialmente por ser um intelectual inserido no universo da leitura e da interpretação dos textos bíblicos e filosóficos. Com a consolidação das igrejas protestantes, este século experimentou avanços, mas ainda conservou a oralidade – não questionada pela Reforma – em destaque. Ainda assim suas consequências contribuíram, ou pelo menos afetaram, a passagem da cultura oral para a da leitura e da escrita.

Monumento a Lutero na Marktplatz, em Wittenberg

Com a difusão da alfabetização e do texto escrito, com a imprensa dos tipos móveis de Gutenberg, as relações humanas começam a sofrer alterações. A principal delas é o início do desaparecimento do mediador e a intervenção individual e direta. Nas relações da sociedade, os principais papeis a perderem influência e significado são os velhos, cuja memória perde a utilidade social, e os sacerdotes, por causa do segredo do seu prestígio e pelo seu poder, cujo núcleo é uma espécie de elo entre o escrito e o oral.

Mesmo que haja coincidência no movimento (a Reforma), no lugar (Alemanha) e no tempo (séc. XVI), não é possível conectar a leitura da bíblia em linguagem vulgar com a alfabetização, significando que não houve uma interferência da Reforma na tradição da cultura oral. A oralidade ainda reina absoluta em casa, na escola e nas igrejas.

As mudanças a esse quadro começam a ganhar forma quando Lutero faz um elogio ao Conselho da cidade de Nürenberg pela criação do Ginásio de Egydio. O reformador destaca a escolha e contratação das pessoas mais qualificadas, mesmo que não tivessem nenhuma universidade para a formação de mestres especializados no ensino de grego, latim, hebraico, poética e matemática. Assim, Lutero se tornou um entusiasta da educação, da leitura e da formação das novas gerações do seu povo.

*Pós-Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Tocantins (UFT/Capes) - Campus Araguaína - e Pesquisador da Cátedra UNESCO de Leitura

Ensaio: Nem vigiar nem punir: o projeto de remissão prisional pela leitura




Valéria Medeiros*

Dois homens olharam através das grades da prisão;
um viu a lama, o outro as estrelas.
Santo Agostinho

O conflito entre facções rivais no Complexo Penitenciário de Pedrinhas, de São Luís (MA), no 6 de fevereiro, foi destaque nos veículos de mídia, provocando estarrecimento da sociedade, repercussão internacional e denúncias de organismos de Direitos Humanos, mas ainda insuficientes para sensibilizar os poderes republicanos, as autoridades locais e a sociedade. Originalmente chamado Penitenciária de Pedrinhas, o complexo hoje abriga, a 15 km da capital maranhense, o Presídio Feminino, o centro de Custódia de Presos de Justiça, Casa de Detenção, Presídio São Luís I e II, Triagem e o Centro de Detenção Provisória.

Em 1962, a penitenciária começou a funcionar precariamente em um edifício ergido em terreno acidentado, árido e impróprio para a agricultura. As instalações, improvisadas, contavam com uma cozinha – na verdade uma casa de taipa – onde as refeições eram preparadas numa pequena caldeira à lenha e água de poço. A luz vinha de um motor a óleo. Nas décadas seguintes, às condições em constante processo de deterioração somou-se o problema, igualmente crescente, da superpopulação carcerária.

Presos amontoados em celas sujas, mas conservadas e ar rarefeito, deixam registros desde pelo menos 2003. Entre 2007 e 2013, 170 mortes foram registradas; em 2010, 18 presos morreram durante mais uma rebelião e 14 foram decapitados e outros mutilados em situação semelhante em 2011. No ano de 2013, casos de violência sexual contra familiares em dias de visita, tortura e 60 mortes foram documentadas pelo Conselho Nacional de Justiça. Em outubro daquele ano, um preso foi decapitado e outros dois morreram durante a transferência de 18 presos do Centro de Custódia de Presos de Justiça (CCPJ) do Anil para o complexo de Pedrinhas.

Podemos concluir que a rebelião recente em Pedrinhas é mais que uma tragédia anunciada, é endêmica. O sistema carcerário no Brasil – o quarto maior do mundo e cronicamente precário – parece já ter surgido fadado ao fracasso.

Mesmo que essa situação pareça muito nova e ao mesmo tempo antiga para a maioria das pessoas, é apenas sintoma da violência e inaptidão do Estado para lidar com o crime. Antigo, porque o cenário parece medieval. No entanto, pouco difere de uma prisão européia em meados do século XVIII, como a Kilmaiham Gaol, em Dublin, República do Eire.
A maioria das prisões nesta época eram sinônimo de crueldade e degradação. Muitos carcereiros abusavam de suas atribuições com poderes tirânicos. Em sua maioria mal remunerados, viam os prisioneiros como uma de muitas fontes de renda e usavam a força bruta para lucrar com eles.

Se o prisioneiro ou sua família fossem ricos, várias celas poderiam ser arranjadas juntamente com toda a comida e bebida que quisessem durante as visitas. A família poderia inclusive morar com o preso. Mas se o prisioneiro fosse pobre ou falido, teria que dormir sobre a palha em uma cela imunda, à beira da inanição.

De modo geral, carcereiros e sociedade tinham pouco ou nenhum interesse no bem-estar moral e físico dos presos. As prisões eram concebidas para confinar o mal e a ameaça que os criminosos representavam para a sociedade, e não para reformá-los. Bebedeira e prostituição eram comuns e, na prisão, a lei não fazia distinção entre crianças e adultos. Os primeiros, na verdade, recebiam na penitenciária a instrução necessária para o crime.

Porém, uma onda de revolta contra tais condições deu origem a uma reforma prisional na década de 70 do século XVIII. John Howard, um pastor inglês, tornou-se o pioneiro do movimento. Após visitar várias prisões na Inglaterra e na Irlanda, Howard descreveu minuciosamente as condições degradantes que testemunhou e começou a pressionar os parlamentares por mudança – que se baseavam basicamente em duas áreas principais, a separação e a higiene.

Na passagem do século XIX o crime já é uma questão, gerando uma ampla e sistemática reflexão, não restrita apenas aos limites científicos, em vários países ocidentais. A intensificação do processo de urbanização a que as grandes metrópoles assistem explica de forma geral o aumento significativo do número de crimes registrado em tais cidades e contribui para uma nova onda reformadora nas prisões.

É possível identificar um denominador comum entre a Kilmaiham e o Complexo de Pedrinhas: a prisão, antes de servir ao propósito e confinamento e recuperação do preso, extrapola os limites das celas e muros para funcionar como um sismógrafo da política e da história. Mais ainda, expõe as delicadas relações entre o crime e o Estado e seus instrumentos - e sua eficácia - de coerção e manutenção da segurança pública, a lei e a polícia. O presídio costuma ser exemplo frequente e claro da relação Estado desorganizado versus crime organizado. Foi assim em maio de 2012 um esquema fraudulento de troca de falsos dias trabalhados por desconto no cumprimento da pena, beneficiando presos de alta periculosidade, dentro da Penitenciária Agrícola de Monte Cristo (PAMC), Roraima, com o conhecimento e anuência do diretor da unidade prisional e do próprio secretário de Estado de Justiça e Cidadania.

Porém, o sistema prisional tem chamado a atenção em todo mundo por uma nova onda de reforma, desde a década de 80 do século XX no Brasil. Diante da constatação óbvia da falência da estrutura carcerária, a inadequação do espaço físico, o número insuficiente e remuneração incompatível de profissionais com a função, a pena provativa de liberdade é considerada como forma de recuperação do condenado para o retorno à vida social sem uma “conduta ilícita”, por assim dizer.

Esta reforma morosa e complexa que envolve vários poderes e relações de poder dentro e fora dos presídios (considerando-se que a execução penal é uma das pontas do Sistema de Justiça Criminal relevante por sua função de romper com o círculo vicioso da criminalidade pela reeducação, ressocialização e reinclusão) surgiu na forma da remissão prisional que, no Brasil, está prevista na Lei 7.210 de 11 de julho de 1984, conhecida como Lei de Execução Penal – LEP, regulamentada pelos artigos 126 a 130.

O termo remissão (do latim remissio – de remittere) significa perdão, renúncia; liberação de uma dívida, por parte do credor ao devedor, isto é, a liberação da dívida em termos penais. Há várias modalidades, mas me atenho àquela que no Brasil ainda permance pouco conhecida e de prática legalmente prevista mas metodologicamente pouco clara: a remissão prisional pela leitura.

O objetivo da Portaria Conjunta n. 276, de 20 de junho de 2012, (publicada no Diário Oficial da União em 22/06/2012, edição n. 120, seção 1, p. 25) é instituir instrumento para disciplinar o “Projeto da Remição pela Leitura no Sistema Penitenciário Federal”, facultada a condenados a pena privativa de liberdade, conforme seu art. 3º. O detento receberá o livro e deverá apresentar uma resenha escrita, comprovando que a leitura foi efetivamente realizada, garantindo-lhe uma redução parcial da pena. Isso significa que o detento da unidade federal poderá, de acordo com o projeto, beneficiar-se com a redução de até 4 dias de pena por mês, ou 48 dias por ano. Um condenado a 10 anos de prisão poderá reduzi-la de 480 dias, por exemplo.

A iniciativa é louvável, com certeza. Parece baseada na idéia de que o hábito da leitura, uma vez incentivado, levaria ao aprimoramento humano no presídio, em consonância com os objetivos básicos da imposição da pena. Porém, esbarra em questões de âmbito legal e metodológico pois parte do princípio que no presídios, há leitores competentes e capazes de redigir uma resenha. Pergunto: o que sabemos sobre a educação prisional? Esta é uma modalidade de educação pouco conhecida, para não dizer marginalizada. Além disso, incorre no erro comum de incentivar a leitura através da oferta de livros - supondo que haja bibliotecas com profissionais qualificados nas prisões - e não na formação de leitores.
Por mais perturbador que possa ser, é preciso que a sociedade se lembre cotidianamente que existe toda uma comunidade que habita o presídio: presos (ou reeducandos), carcereiros, gestores etc. E que apesar do desejo coletivo de que os presos lá permaneçam ou que na melhor das hipóteses o processo de reinclusão social seja bem sucedido, isso não acontecerá sem o conhecimento e a mobilização contra as condições que se perpetuam historicamente. Não se trata de acreditar que a leitura vai “recuperar” o criminoso e ele não recairá em delito mas reconhecer seu direito a um tratamento humano – que é garantido por lei.

Antes de ler histórias cada preso tem uma história a contar, antes e durante a prisão. É um universo paralelo que só chega até nós através das notícias alarmantes sobre rebeliões e o medo generalizado de que presidiários fugidos depois de fugas em massa e espetaculares debaixo do nariz dos gestores possam ameaçar nossa já frágil segurança.

Urgente é conhecer, antes mesmo de pensar sobre, a educação prisional. Qual o espaço possível que a educação ocupado pela educação no sistema prisional? Qual o mapa desta modalidade de educação, invisível nos cursos de licenciatura e na literatura acerca da formação docente no Brasil? Quias seus objetivos, diretrizes e prerrogativas jurídicas? Quem é esse professor que atua nos presídios e sob quais condições? Enfim, temos escolas nos presídios ma se elas efetivamente formam leitores capazes de sufruir do seu direito à remissão?

Precisamos discutir antes a educação prisional como uma modalidade da Educação sua relação com os Direitos Humanos, seus contornos legais e administrativos para então pensarmos em como. Investigar e pensar a remissão prisional no Presídio Barra da Grota, em Araguaína, Tocantins é o objetivo de meu projeto no recém implantado Observatório de Leitura e Inovações Tecnológicas para a Leitura UFT – CNPq. A educação prisional e sua articulação com o projeto de remissão também é investigado em dissertação em andamento no PPGL - Ensino de Língua e Literatura neste campus da Universidade Federal do Tocantins e pesquisa de iniciação científica.

A questão é por demais ampla e exige a articulação do governo, poder legislativo, universidade, sistema penitenciário e seus gestores, próprios os reeducandos e sociedade civil. Em vigor no Brasil desde junho de 2012, o projeto de remissão prisional já está sendo implantado em vários estados como o Tocantins e Roraima, onde, infelizmente, os presos ainda não puderam usufruir da remissão por entraves legais. Sem a devida reflexão e planejamento corremos o risco de ver a idéia (e em 19/11/2014 foi aprovada a lei que garante a remissão prisional pelo esporte) sucumbir ao falido sistema prisional que como vimos, parece já ter nascido fadado a se constituir em um espaço onde a ilegalidade se sobrepõe à lei e aqueles que nele se inserem tomam um caminho sem volta para a manutenção onde tudo se torna moeda para a corrupção.

Isso já acontece em Roraima, onde o projeto “Monteiro Lobato” foi lançado em abril de 2013 como alternativa para remissão da pena dos detentos do Sistema Prisional de Roraima, numa parceria entre a  Secretaria de Justiça e Cidadania (Sejuc) e o Tribunal de Justiça (TJRR), por meio da Vara de Execução Penal, mas até o momento em que escrevo nenhum detento foi beneficiado com a redução da pena.

É fundamental esclarecer a população sobre as metas e os processos do projeto de remissão prisional pela leitura e que esta avalie, criticamente, quantos desta super-população carcerária - lembrando que muitos estão presos ilegalmente ou aguardando a solução para seus processos sob pilhas de um sistema penal sobrecarregado - estão de fato e de direito aptos a ler criticamente, para além da decodificação, como se define um leitor competente.
Não se trata de recuperar o preso do mal ou não, ser a favor ou contra o projeto, pensar que o crime é uma predisposição ou que a leitura irá instrumentalizar o preso para o crime, mas sim de garantir o acesso de direito e de qualidade à leitura que todo cidadão merece. É uma longa cadeia que envolve reeducandos, bibliotecários, gestores, professores e outros personagens de um universo tão pouco conhecido e capaz de despertar reações diversas – tanto de quem está dentro quanto de quem está fora, como nos sugere Santo Agostinho na frase que emoldura esta reflexão.

* Doutora e Pós-Doutora em Letras, Docente do Programa de Pós-Graduação em Letras: Ensino de Língua e Literatura, da Universidade Federal do Tocantins (UFT/CNPq) - Campus de Araguaína - e  Pesquisadora da Cátedra UNESCO de Leitura