sexta-feira, 22 de abril de 2016

Dilma: sem redução da pobreza, será impossível combater mudanças do clima

Yara Aquino - Repórter da Agência Brasil

Em discurso na cerimônia de assinatura do Acordo de Paris, hoje (22), em Nova York, a presidenta Dilma Rousseff disse que firmar o documento que trata de mudanças climáticas é apenas o começo de um caminho desafiador para países desenvolvidos e em desenvolvimento. O acordo prevê o combate aos efeitos das mudanças climáticas e a redução das emissões de gases de efeito estufa.

Dilma assumiu, diante dos chefes de estado e de governo presentes na cerimônia na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), o compromisso de assegurar a pronta entrada em vigor do acordo no Brasil.



“O caminho que teremos que percorrer agora será ainda mais desafiador, transformar nossas ambiciosas aspirações em resultados concretos; realizarmos compromissos que assumimos irá exigir a ação convergente de todos nós, de todos os nossos países e sociedades rumo a uma vida e uma economia menos dependente de combustíveis fósseis, dedicadas e comprometidas com práticas sustentáveis na sua relação com o meio ambiente”, disse Dilma.

O acordo global sobre clima foi aprovado durante a 21ª Conferência das Partes (COP21) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, em Paris, em dezembro de 2015.

A presidenta também disse que é fundamental ampliar o financiamento para o combate aos efeitos negativos das mudanças climáticas. “É indispensável criar meios de reorientar os fluxos financeiros internacionais de modo permanente para apoiar ações que representem soluções para o problema global”, disse Dilma. Ela destacou também que é necessário que o setor privado desenvolva um esforço robusto na redução das emissões de gases.

A presidenta Dilma lembrou que o Brasil traçou metas ousadas sobre o meio ambiente e disse ter orgulho do trabalho desenvolvido por seu governo e pelo país para a construção de Acordo de Paris. Afirmou, ainda, que os efeitos negativos das mudanças ambientais recaem principalmente sobre as populações mais pobres.

Pobreza e desigualdade

“Meu governo traçou metas ambiciosas e ousadas porque sabe que os riscos associados aos efeitos negativos recaem fortemente sobre as populações vulneráveis do nosso país e do mundo quando nós não tomamos medidas corretas para contenção da mudança do clima. Essa preocupação deve ser compartilhada agora e por todos nós. Sem a redução da pobreza e da desigualdade não será possível vencer o combate à mudança do clima”, afirmou.

Ao longo do discurso, Dilma citou metas brasileiras já anunciadas por ela em evento da ONU, em setembro do ano passado, de contribuir com a redução de 37% na emissão de gases de efeito estufa até 2025 e de 43% até 2030, tendo 2005 como ano-base.

Representantes de cerca de 160 países assinam o acordo de Paris, que foi fechado em dezembro de 2015, depois de difíceis negociações entre 195 países e a União Europeia. Para que entre em vigor em 2020, o acordo, no entanto, só se concretizará quando for ratificado por 55 países responsáveis por, pelo menos, 55% das emissões de gases de efeito de estufa.

A presidenta Dilma Rousseff discursou hoje (22) na sessão de abertura da cerimônia de assinatura do Acordo de Paris, na sede da ONU, em Nova York. Dilma mencionou a crise política que vive o Brasil e disse que a sociedade brasileira soube vencer o autoritarismo, construir a democracia e saberá impedir retrocessos.

Para assistir ao discurso da Presidenta Dilma, clique aqui

Leia a íntegra do discurso da presidenta Dilma Rousseff

Senhor secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon,
Senhor presidente da França e presidente da COP21, presidente François Hollande,
Senhoras e senhores chefes de Estado e de governo participantes dessa cerimônia de assinatura do Acordo de Paris,
Senhoras e senhores integrantes de delegações,
Senhoras e senhores,

Com imensa honra e emoção, venho a Nova Iorque, hoje, no Dia da Terra, assinar o Acordo de Paris sobre a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima, um acordo universal.

Sua conclusão exitosa, em dezembro de 2015, representou um marco histórico na construção do mundo que queremos: um mundo de desenvolvimento sustentável para todos, com o cumprimento das metas estabelecidas na Agenda 2030. O êxito deve muito à atuação do governo francês, à judiciosa e paciente construção do acordo pelo presidente François Hollande e também ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon. 

Tenho orgulho do trabalho desenvolvido pelo meu governo e pelo meu país para que, coletivamente, chegássemos a esse acordo. Tenho orgulho de nossa contribuição e da contribuição de todos os países e da sociedade internacional. Agradeço o esforço e o trabalho incansável da equipe de negociadores do Brasil, chefiada pela nossa ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira. 

Nós, países participantes, demos respostas firmes e decisivas aos imensos desafios apresentados pela construção de um amplo consenso, consenso necessário para o enfrentamento das mudanças do clima.

Hoje, ao lado de todos os chefes de Estado e de governo aqui presentes, assumo o compromisso de assegurar a pronta entrada em vigor do Acordo no Brasil e mais uma vez saúdo a todos por essa histórica conquista da humanidade. 

O caminho que teremos de percorrer agora será ainda mais desafiador: transformar nossas ambiciosas aspirações em resultados concretos. Realizar os compromissos que assumimos irá exigir a ação convergente de todos nós, de todos os nossos países e sociedades, rumo a uma vida e a uma economia menos dependentes de combustíveis fósseis, dedicadas e comprometidas com práticas sustentáveis na sua relação com o meio ambiente. 

Países em desenvolvimento, como o Brasil, têm apresentado resultados expressivos na redução das emissões e se comprometeram  com metas ainda mais ambiciosas. 

O desafio de enfrentar a mudança do clima torna imprescindível o aumento progressivo do nível de ambição dos países desenvolvidos. Exige, de forma contínua, a mobilização de meios de implementação adequados, para que os países em desenvolvimento tenham suporte e sigam contribuindo para os esforços globais de mitigação e adaptação. 

É fundamental ampliar o financiamento do combate à mudança do clima para além do compromisso de US$ 100 bilhões anuais. 

É indispensável criar meios de reorientar os fluxos financeiros internacionais de modo permanente para apoiar ações que representem soluções para o problema global e promovam também benefícios de adaptação, saúde pública e desenvolvimento sustentável. 

É necessário, ainda, que o setor privado desenvolva um esforço robusto de redução de emissões. 

Senhoras e senhores, 

Ao reiterar o compromisso do Brasil com os objetivos do Acordo de Paris, quero assegurar que estamos perfeitamente cientes que firmá-lo é apenas o começo.  A parte mais fácil. 

Meu país está determinado a intensificar ações de mitigação e de adaptação. Anunciei aqui, durante a Cúpula da Agenda de Desenvolvimento 2030, a contribuição brasileira de 37% de redução dos gases de efeito estufa até 2025, assim como a ambição de alcançarmos uma redução de 43% até 2030 – tomando 2005 como ano-base em ambos os casos.

Alcançaremos o desmatamento zero na Amazônia e vamos neutralizar as emissões originárias da supressão legal de vegetação. Nosso desafio é restaurar e reflorestar 12 milhões de hectares de florestas e outros 15 milhões de hectares de pastagens degradadas. Promoveremos também a integração de 5 milhões de hectares na relação lavoura-pecuária e florestas. 

Todas as fontes renováveis de energia terão sua participação em nossa matriz energética ampliada até alcançar 45% em 2030. 

Continuaremos contando com a contribuição e a participação de todos os setores de nossa sociedade, que estão conscientes da amplitude do desafio, e com a necessidade de deixar este legado às futuras gerações. 

Senhoras e senhores, 

Meu governo traçou metas ambiciosas e ousadas porque sabe que os riscos associados aos efeitos negativos recaem fortemente sobre as populações vulneráveis de nosso país e do mundo quando nós não tomamos medidas corretas para a contenção da mudança do clima. 

Essa preocupação deve ser compartilhada agora e por todos nós. Sem a redução da pobreza e da desigualdade não será possível vencer o combate à mudança do clima. E esse combate tampouco pode ser feito à custa dos que menos têm e menos podem. 

Essa é uma das razões pelas quais o conceito de desenvolvimento sustentável precisa ser referência permanente de nosso projeto comum. Incluir, crescer, conservar e proteger: eis a síntese alcançada na Conferência Rio+20, realizada no Brasil em 2012. 

Senhoras e senhores, 

Não posso terminar minhas palavras sem mencionar o grave momento que vive o Brasil. A despeito disso, quero dizer que o Brasil é um grande país, com uma sociedade que soube vencer o autoritarismo e construir uma pujante democracia. Nosso povo é um povo trabalhador e com grande apreço pela liberdade. Saberá, não tenho dúvidas, impedir quaisquer retrocessos. 

Sou grata a todos os líderes que expressaram a mim sua solidariedade. 

Muito obrigada.

Edição: Kleber Sampaio, com informações da Agência Lusa


Press Release 044 – 22 de abril de 2016

Editorial
   Lutar contra o golpe se impôs http://bit.ly/1NoyKH9

TV Leituras  
   Dilma: sem redução da pobreza, será impossível combater mudanças do clima http://bit.ly/22XhvyJ

TV Leituras  
   Espaço Público entrevista a filósofa Marcia Tiburi http://bit.ly/22UNqzK

Ensaios
   A crise brasileira e a geopolítica mundial http://bit.ly/1QtkqrF

Artigo
   Lula deve morrer http://bit.ly/1VIc4VB

Saberes na Rede
   Havana Connection: Cunha? Bolsonaro? Fim do mundo é a reação do Jean http://bit.ly/1qH4Xz8

Notícias

   Diminui diferença entre jovens ricos e pobres que concluem ensino médio http://bit.ly/1MO8tlQ

   Veja quem está sendo implantado na Presidência - e na Chefia das Finanças http://bit.ly/1VND1qn

   'É o mal assumindo o protagonismo', alerta pastor sobre golpe a governo Dilma http://bit.ly/26l69sO

   “Nem os brasileiros entendem”, diz correspondente chinesa sobre impeachment http://bit.ly/1SC05bh

   Presa política lembra como conheceu coronel Ustra, homenageado por Bolsonaro http://bit.ly/1qH5pgG

   New York Times: honesta, Dilma pode ser afastada por criminosos http://bit.ly/1ToatQV

Clássicos da Música
   Now we are free (Gladiator) - Hans Zimmer & Lisa Gerrard http://bit.ly/1SC0muV

O Prazer da Leitura
   Trampolim do Saber http://bit.ly/1NozJr1

Imagem
   Curumin http://bit.ly/1MO9oCK

Prof. Antonio Carlos Ribeiro
Universidade Federal do Tocantins/PPGL/CAPES
Editor

Se desejar ler os demais Press Release, clique em http://bit.ly/1E35ugR

Editorial - Lutar contra o golpe se impôs!

Não há mais como, quanto e porquê esperar! O golpe nos assaltou domingo passado. De forma brusca, covarde, violenta. Sem cidadania, educação, cortesia, republicanismo e até linguagem. O discurso de seus representantes é grosseiro, tosco, leviano, vulgar. Apela à desfaçatez, à incúria, à força, à simples estupidez e à violência, seu recurso último, até por lhe faltar todos os requisitos básicos.

Também não está preocupado com a expressão. Lhes falta palavra e sobra soberba, do mesmo modo que cultura política em vez de frases sem gramática e nem sintaxe, de argumentação no lugar de imposição, de demonstração de cultura básica ao invés de saciar olhos e bocas. Foi assim que a sessão de abertura do processo de impeachment pode ser comparada à antessala do inferno, de Alighieri - evite o argumento, até porque os estúpidos não têm cultura por convicção - até nos mais altos cargos da nação.

Assim, esta edição está dedicada à compreensão da pior aula de educação, cortesia, ética e cidadania que a Câmara dos Deputados - e seu presidente de currículo "intocável", nestes quesitos, claro - propiciaram aos brasileiros, e que o jornal New York Times descreveu como pirotecnia circense. A leitura se impõe ao golpe!

Espaço Público entrevista a filósofa Marcia Tiburi

A TV Leituras reproduz a entrevista do Programa Espaço Público com a Professora Márcia Tiburi, tratando de temas como feminismo, ética, estética, televisão e literatura. É uma filósofa preocupada com a intolerância dos dias atuais é a entrevistada do programa Espaço Público.

A crise brasileira e a geopolítica mundial

Leonardo Boff*
         
Seria errôneo pensar a crise do Brasil apenas a partir do Brasil. Este está inserido no equilíbrio de forças mundiais do âmbito na assim chamada nova guerra fria que envolve principalmente os EUA e a China. A espionagem norte-americana, como revelou Snowden atingiu a Petrobrás e as reservas do pré-sal e não poupou até a presidenta Dilma. Isto é parte da estratégia do Pentágono de cobrir todos os espaços sob o lema: ”um só mundo e um só império”. Eis alguns pontos que nos fazem refletir.

No contexto global há uma ascensão visível da direita no mundo inteiro, a partir dos próprios EUA e da Europa. Na América Latina está se fechando um ciclo de governos progressistas que elevaram o nível social dos mais pobres e firmaram a democracia. Agora estão sendo assolados por uma onda direitista que já triunfou na Argentina e está se pressionando todos os países sul-americanos. Falam, como entre nós, de democracia mas, na verdade, querem torná-la insignificante para dar lugar ao mercado e à internacionalização da economia.



O Brasil é o principal atingido e o impedimento da presidenta Dilma é apenas um capítulo de uma estratégia global, especialmente das grandes corporações e pelo sistema financeiro articulado com os governos centrais. Os grandes empresários nacionais querem voltar ao nível de ganho que tinham sob as políticas neo-liberais, anteriores a Lula. A oposição à Dilma e o apoio ao seu impedimento possui um viés patronal. A Fiesp com o Skaf, a Firjan, as Federações do Comércio de São Paulo, a Associação Brasileira da Indústria Eletrônica e Eletrodoméstica (Abinee), entidades empresariais do Paraná, Espírito Santo, Pará e muitas redes empresariais estão já em campanha aberta pelo impedimento e pelo fim do tipo de democracia social implantada por Lula-Dilma.

A estratégia ensaiada contra a “primavera árabe” e aplicada no Oriente Médio e agora no Brasil e na América Latina em geral   consiste em desestabilizar os governos progressistas e alinhá-los às estratégias globais como sócios agregados. É sintomático que em março de 2014 Emy Shayo, analista do JB Morgan, coordenou uma mesa redonda com publicitários brasileiros ligados à macroeconomia neoliberal com o tema: ”como desestabilizar o governo Dilma”. Armínio Fraga, provável ministro da fazenda num eventual governo pós-Dilma vem do JB Morgan (cf.blog de Juarez Guimarães, ”Por que os patrões querem o golpe”).




Noam Chomski, Moniz Bandeira e outros advertiram que os EUA não toleram uma potência como o Brasil no Atlântico Sul que tenha um projeto de autonomia, vinculado aos BRICS. Causa grande preocupação à política externa norte-americana a presença crescente da China, seu principal contendor, pelos vários países da América Latina, especialmente e no Brasil. Fazer frente a outro anti-poder que significam os BRICS implica atacar e enfraquecer o Brasil, um de seus membros com uma riqueza ecológica sem igual.o mal

Talvez o nosso melhor analista da política internacional, Luiz Alberto Moniz Bandeira, autor de “A segunda Guerra Fria – geopolítica e dimensão estratégica dos Estados Unidos” (Civilização Brasileira 2013) e o deste ano “A desordem internacional” (da mesma editora) nos ajude a entender os fatos. Ele trouxe detalhes de como  agem os EUA: ”Não é só a CIA… especialmente as ONGs financiadas pelo dinheiro oficial e semi-oficial como a USAID, a National Endwoment for Democracy, atuam comprando jornalistas e treinando ativistas”. O The Pentagon´s New Map for War & Peace enuncia as formas de desestabilização econômica e social através dos meios de comunicação, jornais, redes sociais, empresários e infiltração de ativistas. Moniz Bandeira chega a afirmar: “não tenho dúvida de que no Brasil os jornais estão sendo subsidiados… e que jornalistas estão na lista de pagamento dos órgãos citados acima e muitos policiais e comissários recebem dinheiro da CIA diretamente em suas contas” (cf. Luis Nassif Jornal GGN 09.03.06).




Podemos até imaginar quais seriam esses jornais e os nomes de alguns jornalistas, totalmente alinhados à ideologia desestabilizadora de seus patrões.

Especialmente o pré-sal, a segunda maior jazida de gás e de petróleo do mundo, está na mira dos interesses globais. O sociólogo Adalberto Cardoso, da UERJ, numa entrevista à Folha de São Paulo (26/04/2015), foi explícito: “Seria ingenuidade imaginar que não há interesses internacionais e geopolíticos de norte-americanos, russos, venezuelanos, árabes. Só haveria mudança na Petrobras se houvesse nova eleição e o PSDB ganhasse de novo. Nesse caso, se acabaria o monopólio de exploração, as regras mudariam. O impeachment interessa às forças que querem mudanças na Petrobrás: grandes companhias de petróleo, agentes internacionais que têm a ganhar com a saída da Petrobrás da exploração de Petróleo. Parte desses agentes quer tirar Dilma”.


Não estamos diante de um pensamento conspiratório, pois já sabemos como agiram os norte-americanos no golpe militar em 1964, infiltrados nos movimentos sociais e políticos. Não é sem razão que  a quarta frota norte-americana do Atlântico Sul está perto de nossas águas. Devemos nos conscientizar  de nossa importância no cenário mundial, resistir e buscar o fortalecimento de nossa democracia, para que  represente menos os interesses das empresas  e mais as demandas tão olvidadas de nosso povo, e na construção de nosso próprio caminho rumo ao futuro.

* Articulista do Jornal do Brasil online e escritor

Lula deve morrer


Como saudação ao golpismo facistóide, que se arrasta pelas manhãs de domingo -
já que as elites não abrem mão de sequer um minuto de vida aos - que lhes devotam
a existência, e lhes roubam até o único dia dedicado à devoção, família e amigos.
Ódio no coração é como beber veneno e querer que o outro morra (Shakespeare)!

Ayrton Centeno*

Lula já deveria ter morrido. Cedo, quando nasceu. Quando veio ao mundo em 1945, a mortalidade infantil no Brasil era de 146 x 1000. Quase 150 óbitos antes do primeiro ano de vida em cada mil crianças. Isto na média nacional que, hoje, a propósito, é dez vezes menor. Mas naquele tempo, para quem vinha aumentar família pobre, da área rural e do Nordeste, os números eram ainda mais atrozes.

Um dos 12 filhos de dona Lindu - quatro não sobreviveram - Lula nasceu em Caetés, então zona rural de Garanhuns/PE. Casa de taipa, erguida em barro e madeira, um quarto, uma mesa, cinco redes. Água? Amarela, das poças de chuva, dividida com o gado e povoada por girinos. Comida? Feijão, arroz e farinha, carne rara, às vezes de preá ou passarinho. Proteína animal acessível era a da içá, nome da tanajura no Agreste pernambucano.

Talvez por isso prosperou na região a prática não registrar os bebês logo após o parto. Aguardava-se o segundo aniversário. Era preciso que a criança “vingasse”. Aquelas que sucumbiam antes dos dois anos eram sepultadas sem nome nem história. Agitava-se então um sininho. Na tradição de vidas tão ásperas, era o sinal para informar que mais um anjinho subira ao céu.

Quem sabe a dieta de formiga frita tenha salvado Lula de virar estatística. É bem provável que aqueles que o odeiam passem a odiar também o inseto providencial que matou sua fome e o ajudou a sobreviver. E o sininho não bateu.

Vendedor de tapioca aos sete anos, depois tintureiro, engraxate, metalúrgico e presidente de sindicato, Lula poderia ter morrido naquele sábado, 19 de abril de 1980, quando seis agentes do Dops empunhando metralhadoras foram prendê-lo em casa às 5h30 de uma manhã nevoenta. Uma “condução coercitiva” em São Bernardo - com produção, cenografia, figurinos e efeitos especiais muito mais humildes que os atuais - cinco anos antes da ditadura exalar seu último suspiro. Temeu, como diria depois, aparecer morto num “acidente” na via Anchieta. Afinal, sob o regime civil-militar muita gente buscada em casa para “prestar esclarecimentos” nunca mais foi vista. Virou preso político mas, outra vez, não morreu.

'não sabeis que vosso filho saltou para dentro da vida?
Saltou para dentro da vida ao dar o primeiro grito'
(João Cabral de Melo Neto. Morte e Vida Severina)

Lula deveria morrer quando um câncer atacou sua laringe em 2011. Tão logo correu a notícia, as alcateias, nutridas com o lixo tóxico da mídia, uivaram em regozijo nas redes sociais e caixaus de comentários. “Tenho dó do câncer ter que comer carniça petralha”, lamentou um piedoso internauta. Outras vozes se juntaram para chamar o presidente adoentado - que batera sucessivos recordes de popularidade atingindo índice de 83% de aprovação, o maior da história do país - de “verme”, “crápula”, “desprezível”, “nove dedos” e “imundo”. Mas Lula os decepcionou. E, novamente, não morreu.

Lula deveria morrer muitas vezes. Antes de fundar a CUT em 1983, a quinta maior central sindical do mundo. Antes de conceber o Partido dos Trabalhadores em 1980 que conquistaria no voto, quatro mandatos de presidente da república. Antes do Bolsa-Família, do Prouni, de retirar 27 milhões de brasileiros da pobreza extrema, do reajuste anual do salário-mínimo acima da inflação, do PAC, da ampliação da distribuição da renda, de implantar 14 novas universidades federais (contra nenhuma de seu antecessor), de criar mais de 200 escolas técnicas, da descoberta do pré-sal, da política externa independente…

Lula deveria morrer quando emergiu da plebe rude para reivindicar a Presidência da República. E conquistar um posto que, até então, era reservado por direito divino aos nhonhôs da Casa Grande. E este foi um pecado imperdoável. Mortal.

Lula deve morrer porque morto o querem os donatários das capitanias hereditárias da mídia. Os mesmos que, agora, estertoram em lenta agonia na senda da descartabilidade e da obsolescência. E se aferram ao golpe por razões políticas, partidárias e ideológicas mas, acima de tudo, mirando os cofres do Banco do Brasil e do BNDES como última esperança de sobrevida. Aqueles mesmos que, em 1954, revoluteavam com as “aves de rapina” a que Getúlio aludiu na sua carta-testamento: “A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a Justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios” – como se vê, ódio já era o combustível que ardia para conduzir o líder trabalhista ao holocausto. Aqueles mesmos para quem Jango, dez anos depois, apontaria no discurso da Central do Brasil: “A democracia que eles desejam impingir-nos é a democracia antipovo, do anti-sindicato, da anti-reforma (…) A democracia que eles querem é a democracia para liquidar com a Petrobrás; é a democracia dos monopólios privados, nacionais e internacionais, é a democracia que luta contra os governos populares e que levou Getúlio Vargas ao supremo sacrifício”.

Lula deve morrer porque é o desejo dos pets dos barões da mídia: muitos “comunicadores”, colunistas, articulistas, apresentadores de rádio e TV e caudatários avulsos. Há quem reproduza a retórica patronal por convicção. E como é benéfico ser abduzido por tais ideias! Sobretudo para preservar a saúde empregatícia, receber aquele tapinha nas costas e, por um átimo, deixar-se levar pelo devaneio de pertencer ao mesmo clube, a despeito do precipício de classe social, renda e poder que cinde mundos tão opostos. Outros o fazem por obrigação – entre as três, a mais compreensível e respeitável das escolhas. E existem aqueles que cedem calculadamente por submissão. Os que se agacham para subir. E não merecem o mínimo respeito. Neles, é tal a sofreguidão com que entregam suas almas à concupiscência do amo, que não parece disparatado supor que lhe regalariam as polpas com a mesma faceirice, caso houvesse algum interesse na oferta.

Lula deve morrer porque tal aparenta ser a aspiração de uma PF cujos delegados agem como agitadores da direita nas redes sociais, ultrajando seus superiores. A mesma PF que serviu de polícia política prestando relevantes serviços à ditadura de 1964 sem um só gesto de repulsa ou de contrariedade. E que, na democracia, age sem prestar contas à democracia. Não é outra a avidez do MPF. Que afigura desertar do Estado laico para se guiar por um grotesco salvacionismo de ocasião tornando-se, além disso, aríete do golpe em conchavo com as panzer division da imprensa corporativa. E o que dizer dos anseios de um tiranete de província que se porta como o senhor do universo? Tudo sob a contemplação pusilânime, os joelhos tiritantes e as mandíbulas chacoalhando como castanholas do STF que, após construir uma breve história de avanços sociais, acocora-se na hora de travar os reiterados abusos contra o Estado Democrático de Direito.

Lula deve morrer porque sua morte é o que mais ambicionam as madames botocadas e seus maridos botocudos, a lúmpen burguesia boçal, egoísta e plastificada, clamando pelo golpe nas ruas com seus tênis, óculos escuros e abrigos de grife, seus poodles no colo e seus labradores na coleira. Os jovens odiadores, os que bombam os bíceps e matam o cérebro por inanição. O saudosismo de homens e mulheres brancos, de meia-idade e classe média de um regime assassino que se arrastou por duas décadas de infâmia. A ditadura que seus pais e mães engolidores de hóstias pediram nas Marchas da Família com Deus pela Liberdade empunhando rosários e rezando aves-marias contra “a ameaça vermelha”. Fé, rosário e orações viraram arcaísmos. Agora, o nome de Roma é Miami, o da igreja é shopping, o da reza é academia, o da hóstia é botox. Ontem como hoje, porém, o medo e o rancor reverberados com a ascensão da ralé é igual.

Lula deve morrer. Está definido. Mas há um problema: ele não quer. Humilhado e ofendido, até avisou que se queriam matar a jararaca, erraram a paulada. Pior: pela amostragem, muita gente também não quer que ele morra. Gente que acha que, se Lula morrer, morrerá igualmente um olhar horizontal e inédito que percebeu os deserdados e deles cuidou. Enxergou a maioria e não os dez por cento de sempre. Está dado o impasse. Para Lula morrer, terão que matá-lo. Não será tarefa fácil. Prova disso é que o desprezo fantasiado de negro com prepotência e metralhadoras recebeu uma resposta popular que não imaginava. Nem os autores, nem seus cúmplices. Os desafetos que tranquem as portas, ponham as fraldas e mordam o travesseiro. 2018 está logo ali e a jararaca vai fumar. Aquele que se recusa a morrer está novamente em campanha.

*Jornalista

Havana Connection: Cunha? Bolsonaro? Fim do mundo é a reação do Jean

Havana Connection é um programa que reúne quatro intelectuais brasileiros, como o coordenador do MTST, Guilherme Boulos, do jornalista e deputado federal Jean Wyllys, e da jornalista e escritora Laura Capriglione, coordenados pelo jornalista Leonardo Sakamoto. Este programa vai tratar da abertura do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados no último domingo, que deixou os brasileiros horrorizados, e o mundo perplexo, por causa da falta de educação mais básica - não precisava simular cultura e refinamento - mas ao menos educação simples, de casa, que se tornou a grande ausente. Acompanhe o debate.






Diminui diferença entre jovens ricos e pobres que concluem ensino médio

Mariana Tokarnia

Em dez anos, Brasil diminui diferença entre jovens mais ricos e mais pobres que concluem o ensino médio. Em 2005, 18,1% dos jovens de 19 anos entre os 25% mais pobres da população concluiam o ensino médio. Entre os 25% mais ricos, a porcentagem chegava a 80,4%, existindo uma diferença de 62,3 pontos percentuais entre os dois grupos. Em 2014, último dado disponível, o cenário mudou.

Entre os mais pobres, 36,8% concluiam o ensino médio e, entre os mais ricos, 84,9%. A diferença entre os dois grupos ficou em 47,8 pontos percentuais.



Os dados são de levantamento divulgado hoje (18) pela organização não governamental Todos Pela Educação, feito com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A pesquisa tem como objetivo monitorar a Meta 4 da entidade, que estabelece que 90% ou mais dos jovens brasileiros de 19 anos deverão ter completado o ensino médio até 2022. Essa meta também monitora a conclusão do ensino fundamental até os 16 anos, estabelencendo o objetivo de que 95% dos jovens tenham completado este ciclo escolar até 2022.

“A perspectiva é redução de desigualdades. Esse dado é positivo. O Brasil está aumentando os índices e reduzindo as desigualdades”, diz a superintendente do Todos Pela Educação, Alejandra, Meraz Velasco, que pondera que o país ainda apresenta desigualdades que precisam ser enfrentadas.

Ensino fundamental

A redução das diferenças entre os mais pobres e mais ricos ocorre também no ensino fundamental. Em 2005, dos jovens de 16 anos entre os 25% mais pobres da população, 38,8% concluíram o ensino fundamental. Entre os 25% mais ricos, a porcentagem era 90%. A diferença entre os dois grupos era 51,2 pontos percentuais. Em 2014, entre os mais pobres a taxa de conclusão saltou para 62,7% que concluíram o ensino fundamental e, entre os mais ricos, 92,2%, uma diferença de 29,5 pontos percentuais.

De modo geral, os dados mostram que, nos últimos dez anos, o Brasil avançou 15,4 pontos percentuais na taxa de conclusão do ensino médio dos jovens de até os 19 anos. O percentual de concluintes passou de 41,4% em 2005 para 56,7% em 2014. Em números absolutos, isso significa que, nesse intervalo de tempo, os estudantes concluintes passaram de 1.442.101 para 1.951.586.

No ensino fundamental, a taxa de conclusão cresceu na mesma proporção que o ensino médio: quase 15 pontos percentuais, aumentando de 58,9% em 2005 para 73,7% em 2014. Passou de 2.106.316 concluintes em 2005 para 2.596.218, em 2014.

Desigualdades

No ensino médio, entre os grupos de jovens por raça/cor, o maior avanço registrado na década está entre a população parda, cuja taxa de conclusão aos 19 anos aumentou 19,8 pontos percentuais. Entre os pretos, o crescimento foi 17,1 pontos percentuais, enquanto os brancos apresentam 12,3.



No ensino fundamental, também houve queda na diferença. Entre os pardos, houve um aumento na conclusão da etapa de ensino de 20 pontos percentuais em dez anos. Entre os pretos, 18,2 pontos percetuais e, entre os brancos, 10,7.

Apesar das melhorias, as populações pardas e pretas ainda concentram os maiores percentuais de estudantes que não concluíram as etapas de ensino nas idades monitoradas. No ensino fundamental, em 2014, 82,9% dos brancos haviam concluído com 16 anos a etapa, enquanto 66,4% dos pretos e 67,8% dos pardos atingiram o mesmo patamar. No ensino médio, 66,6% dos brancos com 19 anos concluiram a escola. Entre os pretos o percentual foi 46,9% e, entre os pardos, 50,1%.

Na avaliação de Alejandra, o país ainda está distante de cumprir, em 2022 a meta estabelecida pela entidade, de que pelo menos 90% dos jovens brasileiros de 19 anos tenham o ensino médio concluído. “Como em outros indicadores de educação, observamos melhorias, destacamos melhorias, mas o Brasil não está melhorando a educação em um ritmo que a gente esperava”, diz.

Onde estão os jovens?

Quase um quarto dos jovens de 19 anos não estuda e nem trabalha, segundo o estudo, a chamada "geração nem nem". A porcentagem têm se mantido mais ou menos constante. Em 2005, eram 23,1% e, em 2013, a porcentagem subiu para 25,7%. Em 2014, houve uma queda, para 24,5% dessa população. Isso significa que 842.217 jovens estão nessa situação no Brasil.

Aos 16 anos, a porcentagem de "nem nem" é menor, era 11,2% em 2005 e caiu para 10,5% em 2014, o que corresponde a 370.633 adolescentes que não estão na escola e nem trabalhando. Mais 244.232 (6,9%) só trabalham.

“Sem dúvida isso é preocupante e passa pela necessidade de reestruturação do ensino médio. Muito do aumento de quem não frequenta a escola é devido ao desinteresse no ensino médio”, avalia Alejandra. A partir desse ano, o ensino até os 17 anos passa a ser obrigatório no Brasil, como prevê a Emenda Constitucional 59/2009 e o Plano Nacional de Educação (PNE). Para Alejandra, isso deve se refletir nos indicadores futuros.

http://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2016-02/diminui-diferenca-entre-jovens-ricos-e-pobres-que-concluem-o-ensino-medio

Veja quem está sendo implantado na Presidência - e na Chefia das Finanças

Glenn Greenwald

NÃO É FÁCIL ENTENDER A VERDADE, para quem olha de fora, compreender todas as argumentações em jogo a respeito da crise política no Brasil e os esforços para depor sua presidente, Dilma Rousseff, que venceu as eleições há apenas 18 meses, com 54 milhões de votos. A melhor maneira de entender a verdadeira natureza antidemocrática do que está acontecendo, no entanto, é olhar para a pessoa que os oligarcas brasileiros e suas organizações de mídia tentam empossar como Presidente: o Vice-Presidente Michel Temer, implicado em corrupção, extremamente impopular e servo fiel dos plutocratas. Dessa forma, torna-se claro o que realmente está acontecendo e porque o mundo deveria estar profundamente angustiado.

O chefe do New York Times no Brasil, Simon Romero, entrevistou Temer esta semana, e assim começa seu excelente artigo:

RIO DE JANEIRO – Uma pesquisa recente mostrou que apenas 2% dos brasileiros votariam nele. Ele está sob suspeita por conta de um depoimento que ligou seu nome a um enorme escândalo de propina. E uma alta corte da justiça decidiu que o Congresso deve considerar a abertura de impeachment contra ele.

O Vice-Presidente do Brasil Michel Temer está se preparando para assumir o Brasil no próximo mês se o Senado decidir depor a Presidente Dilma Roussef em julgamento.

Como alguém, em pleno domínio da razão, pode acreditar que o sentimento anti-corrupção é o que move os esforços da elite para depor Dilma, quando estão empossando alguém com acusações de corrupção muito mais sérias que as da Presidente? É uma farsa evidente. Mas há algo ainda pior.



A terceira pessoa na linha de sucessão presidencial, depois de Temer, foi apontada como um corrupto descarado: o fanático evangélico e presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (à direita). Foi ele quem encabeçou os procedimentos do impeachment, embora tenha sido descoberto, no ano passado, por enviar milhões de dólares oriundos de suborno para contas no Swiss Bank, depois de ter mentido ao Congresso quando negou que possuía qualquer conta em bancos estrangeiros. Quando Romero perguntou a Temer sobre sua postura diante de Cunha uma vez que assumisse o poder, ele respondeu assim:

O Sr. Temer defendeu a si mesmo e seus principais aliados que estão sob uma chuva de acusações no esquema. Ele expressou apoio a Eduardo Cunha, o infame líder da Câmara que está chefiando os esforços do impeachment no Congresso, dizendo que não pediria a renúncia a Cunha. O Sr. Cunha será o próximo na linha de sucessão presidencial se Temer sair.

Isso demonstra, por si só, a farsa que está ocorrendo aqui. Como disse meu parceiro, David Miranda, hoje pela manhã em seu editorial no Guardian: “Está claro que a corrupção não é a causa dos esforços para depor a duas vezes eleita presidente; na verdade, a corrupção é um mero pretexto”. Em resposta, as elites da mídia no Brasil vão argumentar (como fez Temer) que, uma vez que Dilma seja impedida, os outros políticos corruptos serão certamente responsabilizados, mas eles sabem que isso não é verdade: e o alarmante apoio de Temer a Cunha deixa isso claro.

De fato, reportagens indicam que Temer planeja nomear, como Advogado Geral da União – cargo chave do Governo na investigação da corrupção – um político especificamente indicado por Cunha para o cargo. Como explica o editorial de Miranda, “o verdadeiro plano por trás do impeachment de Dilma é terminar com as investigações em andamento, e portanto, proteger a corrupção, não puni-la.”

Há, no entanto, mais um motivo vital na base de tudo isso. Veja quem vai herdar o controle da economia e das finanças do Brasil uma vez que a eleição de Dilma seja anulada. Duas semanas atrás, a agência Reuters reportou que a primeira escolha de Temer para chefiar o Banco Central é o presidente do Goldman Sachs no Brasil, Paulo Leme. Hoje a Reuters reportou que “Murilo Portugal, o chefe do mais poderoso lobby da indústria bancária do Brasil” – e um antigo executivo do FMI, “surgiu como um forte candidato a assumir o Ministério da Fazenda se Temer tomar o poder.” Temer também disse que vai implementar a austeridade para a população do Brasil que vem sofrendo: ele “pretende reduzir o tamanho do governo” e “cortar os gastos.”




Em uma teleconferência de resultados na sexta-feira com executivos do JP Morgan, o CEO do Banco Latinoamericano de Comércio Exterior SA, Rubens Amaral, explicitamente descreveu o impeachment de Dilma como “um primeiro passo para a normalização do Brasil” e disse que se o novo governo Temer implementar as “reformas estruturais” que a comunidade financeira deseja, então “definitivamente haverá oportunidades.” As notícias sobre os preferidos de Temer para as indicações aos cargos sugerem fortemente que o Sr. Amaral – e seus colegas plutocratas – ficarão satisfeitos.

Enquanto isso, as organizações de mídia dominantes como Globo, Abril (Veja), Estadão – profundamente discutidas no editorial de Miranda – estão virtualmente unidas no apoio ao impeachment – como em No Dissent Allowed – e têm incitado os protestos de rua desde o início. O que isso revela? Os Repórteres sem Fronteiras publicaram ontem seu Ranking de Liberdade de Imprensa de 2016, e o Brasil aparece em 103° lugar, por conta da violência contra jornalistas, mas, também, por causa deste importante fato: “A propriedade dos meios de comunicação continua muito concentrada, especialmente nas mãos de grandes famílias ligadas à indústria que são, muitas vezes, próximas da classe política”. Não é evidente o que está acontecendo aqui?

Então, em resumo: as elites financeira e midiática do Brasil fingem que a corrupção é a razão para remover a presidente eleita duas vezes, enquanto conspiram para instalar e empoderar as figuras políticas mais corruptas do país. Os oligarcas brasileiros terão êxito em tirar do poder um governo de esquerda moderada que ganhou quatro eleições consecutivas, supostamente representando os pobres do país, e estão literalmente entregando o controle da economia brasileira (a sétima maior do mundo) ao Goldman Sachs e os lobistas da indústria bancária.

A fraude que está sendo levada a cabo aqui é tão barulhenta quanto devastadora. Mas é o mesmo padrão que vem sendo repetidamente observado ao redor do mundo, particularmente na América Latina, quando uma pequena elite trava uma guerra , em seu próprio interesse e proteção, contra os fundamentos da democracia. O Brasil, quinto país mais populoso do planeta, tem sido um exemplo inspirador de como uma jovem democracia pode amadurecer e prosperar. Mas agora, essas instituições e princípios democráticos estão sendo agredidas pelas mesmas facções financeiras e midiáticas que suprimiram a democracia e impuseram a tirania neste país por décadas.

Tradução por Erick Dau

transcrito de https://theintercept.com/2016/04/22/para-entender-a-verdade-no-brasil-veja-quem-esta-sendo-implantado-na-presidencia-e-na-chefia-das-financas/

'É o mal assumindo o protagonismo', alerta pastor sobre golpe a governo Dilma


Crítico da mídia e dos evangélicos moralistas a "desserviço da nação",
o pastor batista Ariovaldo Ramos diz que está em curso a adesão ao
capitalismo internacional contrário aos interesses dos trabalhadores brasileiros

São Paulo – O golpe de estado em curso no Brasil, por meio do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, é uma tentativa de adesão ao capitalismo internacional contrário aos interesses do país, dos trabalhadores e das populações segregadas. Entre as consequências, cortes e flexibilização de direitos, inclusive a revisão do conceito de trabalho análogo à escravidão, além do controle e exploração das riquezas. O alerta é do pastor batista Ariovaldo Ramos.

Conhecido por seu pensamento alinhado com a esquerda, o escritor, articulista e conferencista é uma das principais vozes progressistas no meio religioso. Integrante da Frente Brasil Popular, Ari, como é mais conhecido, considera que os evangélicos conservadores prestam um "desserviço à nação" e espera que os senadores se comportem como "chanceleres da República", em vez de se igualar aos deputados. E que a presidenta Dilma volte a dialogar com os movimentos sociais, que se uniram para defender seu mandato e a própria democracia neste momento conturbado.

Confira a entrevista:

Como o sr. avalia os votos que evocavam o nome de Deus na sessão da Câmara deste domingo?

A liberdade de todo ser humano para justificar sua ação como desejar, inclusive citando Deus, não está em questão. E sim que os congressistas que professam a fé evangélica – a maioria dos que justificaram o voto citando Deus – votaram baseados em princípios ou preceitos de moral em vez de aterem-se aos preceitos civis.

Há um sem-número de parlamentares incriminados e acusados de, no mínimo, não terem noção de ética em relação à coisa pública. E isso, de maneira generalizada, não só evangélicos. Esse problema se manifesta de maneira angustiante nos poderes constituídos, como na seletização dos julgamentos das operações na Polícia Federal, por exemplo.

Este é um país laico, que abriga todas as religiões, com liberdade de culto e de expressar-se em nome de seu culto onde quer que esteja. E há religiosos que não se justificam conforme sua fé. O ponto principal, que divide o segmento evangélico, é se o papel do político em exercício de mandato é o de cumprir e mandar cumprir a Constituição Federal e não tomar posição em favor de um ou de outro segmento em detrimento da lei.

É a moral versus a ética...

A pauta moral prevaleceu sobre a legal. E essa era uma maneira de esses deputados, sobretudo os evangélicos, deixarem claro ao governo que abririam mão do cumprimento à Constituição em nome do respeito a princípios da família, tão comuns na fé cristã, ainda mais numa nação que se confessa majoritariamente cristã. Tanto que a questão das pedaladas só apareceu na voz de uma meia dúzia.

E essa campanha moral vem de longa data. O governo que não foi hábil para detectar, entender e dar uma resposta. Um equívoco histórico que está cobrando seu preço agora. Todos que votaram pelo impeachment, muitos até com razões estapafúrdias, desrespeitaram a Constituição e o Estado democrático de direito.

Essa ênfase moral, explícita nos votos em nome da família é a mesma que aparece na extrema-direita em todo o mundo, não só no Brasil. E pode até influir na escolha do eleitorado evangélico alinhado ao PT, mesmo aquele beneficiado pelos programas sociais.

A força do líder religioso não pode ser subestimada. Independentemente da confissão religiosa, o líder está em contato com o fiel. E o governo não.

O sr. tem dito que o golpe é o mal. Por quê?

Para nós, cristãos, o mal é tudo aquilo que atenta contra o bem da humanidade, do ser humano como pessoa e a humanidade enquanto comunidade. Na minha opinião, essa ação que avança, sem que haja motivo jurídico nem sequer para a denúncia, atenta contra a democracia, contra um projeto de emancipação do pobre, do negro, da mulher, do indígena, do quilombola, de todos que estão à margem da sociedade brasileira.



Então atenta contra a humanidade porque atenta contra os mais frágeis, que sofrem qualquer tipo de segregação, que não têm acesso ao bem comum. É um crime contra os assentados da reforma agrária, os que estão em busca de terra para plantar. É um crime contra a soberania nacional, no tratamento dos nossos recursos, que devem ser para fins eminentemente sociais, e que só serão se estiverem sob controle social, do povo, por meio de um projeto governamental que honre a nossa Constituição cidadã – o que não está acontecendo e nem acontecerá se o impeachment vingar.

Estamos assistindo a uma tentativa de adesão acrítica ao capitalismo internacional, cujos interesses são contrários aos nossos interesses – dos trabalhadores –, e que necessariamente buscarão impor cortes e flexibilização nos direitos e até da definição do que seja trabalho análogo à escravidão.

Por isso, entendo que está em curso o que as escrituras chamam de mistério da iniquidade e nós, cristãos, chamamos de mal.  É o mal assumindo o protagonismo.

E a vontade de Deus?

Fazer a vontade de Deus é fazer o que é certo, ou seja, respeitar a Constituição. Essa é a minha postura. Quando digo que os deputados evangélicos evocavam Deus, evocavam a sua visão particular de moralidade, com um viés autoritário e não dialógico, que relativiza a luta pelos direitos civis. Em nenhum momento pode haver uma tentativa autoritária de imposição de um conceito particular sobre o geral.

Em caso de golpe, o Brasil pode perder credibilidade junto à comunidade internacional?

Se acontecer o impeachment, seremos vistos como uma nação que não sabe lidar com a nossa jovem democracia. Depois da independência, tivemos um período monárquico, com democracia relativa. Na República, enfrentamos momentos de exceção, como com Floriano Peixoto e depois com Getúlio Vargas.

Veio então o movimento civil-militar de 1964 e agora essa tentativa de golpe, que pretende ser um ato institucional travestido de institucionalidade – não passa de um golpe de estado.

O mundo saberá que não temos conseguido conviver com a democracia, que ainda não nos tornamos uma nação moderna: temos uma postura antidemocrática e uma estrutura social antiga – inclusive dos tempos pré-revolução industrial –, ainda feudal, que se manifesta nesses arroubos de uma elite que não consegue se adaptar a uma democracia moderna.

Haverá sanções diplomáticas?

O golpe vai falar muito de nós do ponto de vista civil, político, filosófico. Mas os interesses internacionais, escusos, robustos, certamente impedirão quaisquer sanções. Interessa o fim do projeto trabalhista de governo que está em curso no Brasil, o fim do monopólio do petróleo, da nacionalização da construção civil, do regime de exploração do subsolo brasileiro, a flexibilização dos direitos adquiridos pelos trabalhadores com ajuda de traidores que, mesmo de dentro de casa, trabalham pelos interesses internacionais, para reduzir o Brasil a mera republiqueta.

Isso é um absurdo. Estamos sendo submetidos a uma ação dessas. Eu espero que no Senado haja maior senso de respeito à Constituição, que os senadores não queiram se igualar mas superar aquele clima bizarro, patético, burlesco que assistimos no domingo. E que queiram se portar como chanceleres da República, estadistas, e garantam a manutenção do Estado democrático de direito, a Constituição e a indevassabilidade do voto.

Por que isso está em jogo. O voto é majestade numa república porque é o ato do eleitor, de quem emana e para quem emana todo poder. Tomara, queira Deus, que essa seja a oração daqueles que a Ele elevam suas preces. Caso contrário, não passaremos de uma republiqueta.



O que de pior pode acontecer?

O que mais temo é a conflagração nacional. Não estamos mais na década de 1960 e nem somos alienados. As forças sociais, as organizações democraticamente estão aí. E em nome da democracia, do direito, do trabalho, vão reagir à perda de direitos, ao golpe, a uma elite retrógrada, subdesenvolvida.

E isso só Deus sabe onde pode vai parar. Se a elite brasileira acha que esse movimento é simples e acabado, está redondamente enganada. Vai haver reação, vai haver tomada de posição.

O que mais lamento é o complô midiático que transformou sua obrigação da informação em ação contra-informativa. A cada dia que passa, em vez de a gente receber informação, como é direito do cidadão – por isso toda concessão midiática é pública –, recebemos contrainformação ligada a um complô.

Stédile, do MST, já disse que há interesse maior em sangrar o governo, e não derrubá-lo. A aprovação na Câmara poderia ser uma hemorragia?

Nada posso afirmar, mas há essa possibilidade. O que me parece é que a ideia é interromper o projeto trabalhista, no qual tudo tem de ter função social, até mesmo o lucro das empresas, o que contraria interesses do capitalismo internacional, que trabalha na lógica do lucro pelo lucro.

É uma disputa de conceituação de governo, de política, de Estado, que não é uma coisa simples. Pressionado, Getúlio Vargas se suicidou. Depois veio o movimento de 1964, com a ditadura civil-militar, que introduziu partes do que chamamos de capitalismo selvagem e só não se consagrou 100% porque os militares eram nacionalistas.

Com a redemocratização veio a angústia, com Tancredo, e depois a crise, já na democracia, com Collor. A retomada dos postulados capitalistas veio com FHC. Contra tudo o que havia escrito, optou pelo neoliberalismo e foi gradativamente rompendo com o nacionalismo que os militares haviam deixado.

Foram privatizando na lógica do capitalismo dependente, cedendo ao capitalismo internacional a ponto de quase desmontar a estrutura industrial. Não bastasse praticamente o fim da indústria de base, seu governo terminou sob apagão – a forma mais eficaz de sabotar a economia.

Os sonhos dos postulados capitalistas internacionais estavam se realizando, e estávamos voltando a ser exportadores de matéria prima. Não tínhamos mais nada em infraestrutura. Durante 10 anos não tivemos um centavo investido em infraestrutura. Com a chegada do governo trabalhista de Lula, tivemos a retomada do projeto que os militares tentaram silenciar e que FHC parecia ter conseguido.

Nessa retomada, o Brasil volta a existir como nação. Parque industrial brasileiro ressuscita, retomada na economia, 40 milhões de brasileiros saem da linha de miséria, fome vencida, inflação debelada, moeda fortalecida.

Áureos tempos de um governo desalinhado com os postulados do capitalismo internacional ainda que dialogue com o capitalismo.

E Dilma...

Dilma adotou posição dúbia em relação a projetos trabalhistas de modo surpreendente porque ela veio do arraial do Leonel Brizola, um trabalhista por excelência. Houve, porém, algo no meio do caminho que todos nós ficamos a nos perguntar.

Alguns avanços, como reforma agrária, foram parados; houve retrocesso. Projetos emancipatórios de retomada da indústria de base sofreram. E é verdade que a presidente não conseguiu debelar o financismo e nem a mídia, que continua sendo oligopólio. A ausência de um projeto de reforma agrária sustentou um projeto de monocultura, e a ausência de medidas mais sólidas, que refreassem o financismo, impediu o financiamento como precisávamos para o crescimento brasileiro, a juros racionais.

Faltou essa análise. Em algum momento, o governo não percebeu qual era o projeto que deveria fazer vingar. Essa indefinição permitiu que as forças retrógradas se reunissem. Afastar-se dos movimentos sociais foi deletério para seu governo. A perda do apoio popular, dos movimentos sociais, tirou da presidenta capital eleitoral e ela ficou mais à deriva dos oligopólios e sem alicerce pro seu projeto de governo. Tudo isso permitiu a reorganização das forças retrógradas.

Nesse cenário, o movimento evangélico prestou um serviço a esses setores retrógrados e um desserviço à nação ao se deixar subverter pela ênfase midiática, sucumbir à cultura coronelista e colonial que ainda subsiste no Brasil. E aí nós não tivemos a capacidade, a exemplo de outras forças vivas da sociedade civil: a capacidade de analisar, de entender o Brasil, e então assumir direções em relação às posturas que deveríamos tomar enquanto pastores e líderes do rebanho evangélico.

E isso apareceu agora, de forma contundente, agravando a boataria da questão moral com que começamos a conversa. Fechou-se o círculo que hoje atenta contra a sobrevivência da nação como força política internacional.

A luta continua?

Continuo na militância, apoiando. Entendo que o que está acontecendo no Brasil é um retrocesso – o que nós não podemos permitir porque a democracia não é uma benesse. É uma conquista que custou muito caro. Temos de continuar resistindo e denunciando.

Não acredito que o impeachment se concretize; vamos reverter esse quadro, mas vai custar muito caro, com os acordos que vierem a ser feitos. Já está custando. Espero também que, vencida essa fase e a tentativa de golpe, a presidenta se lembre que ela tem um projeto de governo a partir do trabalhador e que foi sustentada pelos movimentos.

Esse é o problema: a gente é esquecido, sai para socorrer o projeto e depois que o projeto se mantém a gente é esquecido de novo. Isso não pode acontecer de novo.


Transcrito de http://www.redebrasilatual.com.br/politica/2016/04/mal-assumindo-protagonismo-alerta-pastor-sobre-golpe-dilma-8613.html

“Nem os brasileiros entendem”, diz correspondente chinesa sobre impeachment

Jornalista que cobre votação de processo para TV da China diz que tem dificuldade para
traduzir para público de seu país o que ocorre no Brasil. Segundo ela, chineses
estão preocupados com impacto de decisão sobre as Olimpíadas

A jornalista Tanli Yang, 28, é uma das correspondentes internacionais que estão acompanhando o processo de impeachment no Congresso Nacional. Repórter da CCTV, a TV nacional chinesa, ela fala sobre a dificuldade de relatar ao público do outro lado do mundo o controverso cenário político em que o país está imerso. “É muito difícil. Acho que esse é o problema: nem o brasileiro consegue entender direito, então nem os chineses, né”, conta Tanli, também conhecida como Olívia – nome dado pela professora de português no Brasil para facilitar.



A jornalista já trabalhou na África e há dois anos e meio mora no Rio de Janeiro,  onde fica o escritório da emissora. “Gosto muito do país”, diz Tanli, que chegou a Brasília com a missão de cobrir a votação do impeachment quinta-feira à noite. A última vez em que esteve na capital foi em 2014, para noticiar a visita oficial do presidente chinês, Xi Jinping.

Para ela, o público chinês está interessado em saber de que maneira a crise política pode vir a afetar a economia do país e, principalmente, a realização dos Jogos Olímpicos. “Queremos saber especialmente se isso vai influenciar a segurança do país”, conta Tanli.

Como tem sido cobrir esse momento político do país?

Pessoalmente, eu nunca imaginei que o Brasil ia chegar nesse ponto, porque no nosso trabalho sempre que acompanhamos as novidades no país observamos o lado positivo. O Brasil desde 2009 passou por um desenvolvimento muito rápido, entrou para o BRICS [bloco de cooperação internacional formado pelo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul], conseguiu sediar a Copa do Mundo e agora as Olimpíadas. Mas, de repente, desde 2011 e 2012 começou essa recessão da economia e em seguida a política entrou numa confusão. Nós queremos descobrir o que levou o país a chegar a este ponto. Até esse momento o país estava muito bem e de repente esse sufoco. A China e Brasil têm uma relação diplomática muito boa, então os chineses e o governo chinês sempre desejam o bem para o Brasil. A gente vai fazer muitas reportagens questionando qual seria a saída para o país, como o Brasil poderia se recuperar dessa crise e voltar  a se desenvolver.

Como traduzir para o público chinês todo o bastidor que envolve esse processo, como a Operação Lava Jato ou o fato de que o presidente da Câmara, que conduz o impeachment é réu no Supremo Tribunal Federal?

É muito difícil. Acho que este é o problema: nem o brasileiro consegue entender direito, então nem os chineses, né. Acho que talvez isso signifique que o Brasil – assim como a China – é um país em desenvolvimento, ainda tem muitas coisas que a gente precisa melhorar para evitar essa situação um pouco estranha para todo mundo.

O público na China tem algum posicionamento sobre o impeachment?

Acho que os chineses ainda estão meio confusos sobre o que aconteceu no Brasil. Sinceramente eu acho que o Brasil é um país muito longe da China, são 24h de voo. Não é uma realidade próxima. Os chineses conhecem mais o futebol brasileiro, mas a política é uma coisa muito nova para eles. O que a gente está fazendo é exatamente explicar pouco a pouco o que aconteceu com a política no país. Eu acho que os chineses estão mais interessado em saber como isso vai influenciar as Olimpíadas que vão acontecer em agosto, porque eles têm uma paixão muito grande pelos Jogos Olímpicos, a delegação de lá é uma das maiores. Queremos saber especialmente se isso vai influenciar a segurança do país, por exemplo. Isso vai influenciar na economia do país? Quais são os desafios para o Brasil, sendo que daqui a três meses ainda sediará o maior evento esportivo? Eu acho que talvez isso não seja um lado muito positivo para mostrar o Brasil, mas acho que cada país tem sua própria maneira de resolver seus problemas. Qualquer decisão tomada pelo povo brasileiro, pelo Legislativo, será respeitada.

Como jornalista, você teve alguma dificuldade na cobertura?

Não, eu acho que o Brasil tem um ambiente muito livre. Falar com qualquer órgão é fácil, sempre conseguimos. Até entrevistamos ano passado a Abin. Isso significa que aqui tem um ambiente muito aberto.

Transcrito de http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/%E2%80%9Cnem-os-brasileiros-entendem%E2%80%9D-diz-correspondente-chinesa-sobre-impeachment/


Presa política lembra como conheceu coronel Ustra, homenageado por Bolsonaro

O casal César Teles (1944-2015) e Amelinha Teles,
em entrevista ao programa Resistir é Preciso, transmitido pela TV Brasil

“Eu fui espancada por ele [coronel Ustra] ainda no pátio do DOI-Codi. Ele me deu um safanão com as costas da mão, me jogando no chão, e gritando 'sua terrorista'. E gritou de uma forma a chamar todos os demais agentes, também torturadores, a me agarrarem e me arrastarem para uma sala de tortura”.

Uma das milhares de vítimas da ditadura militar, Amelinha Teles, descreveu assim seu encontro com Carlos Alberto Brilhante Ustra, conhecido como “coronel Ustra”, o primeiro militar reconhecido pela Justiça como torturador na ditadura.

Ao programa Viva Maria, da Rádio Nacional da Amazônia, Amelinha contou como era o homem admirado por Jair Bolsonaro (PSC-RJ) e citado pelo parlamentar durante seu voto a favor do impeachment de Dilma Rousseff, ontem (17), no plenário da Câmara dos Deputados.

“Ele, levar meus filhos para uma sala, onde eu me encontrava na cadeira do dragão, nua, vomitada, urinada? Levar meus filhos para dentro da sala? O que é isto? Para mim, foi a pior tortura que eu passei. Meus filhos tinham 5 e 4 anos. Foi a pior tortura que eu passei”, disse a ex-militante do PcdoB. A cadeira do dragão era um instrumento de tortura utilizado na ditadura, em que a pessoa era colocada sentada e tinha os pulsos amarrados aos braços da cadeira. Com fios elétricos atados em diversas partes do corpo, a pessoa era submetida a sessão de choques. Amelinha também contou que viu seu marido torturado e em coma ao visitá-lo na unidade do DOI-Codi.

Quem foi Brilhante Ustra



As imagens do
torturador
Carlos Alberto
Brilhante Ustra,
na época em que
atuava no
Destacamento de
Operações de
Informações do
Centro de Operações
de Defesa Interna
(DOI-Codi)






Durante as torturas
e quando
participava dos
 interrogatórios
de militantes presos
pelo regime
usava o codinome
de Doutor Tibiriçá.
Nesta foto,
quando depôs
na Comissão
Nacional da
Verdade (CNV) 




O militar lembrado pelo parlamentar foi chefe-comandante do Destacamento de Operações Internas (DOI-Codi) de São Paulo no período de 1970 a 1974. Em 10 de maio de 2013, ele compareceu à sessão da Comissão Nacional da Verdade. Apesar do habeas corpus que lhe permitia ficar em silêncio, Ustra respondeu a algumas perguntas. Na oportunidade, negou que tivesse cometido qualquer crime durante seu período no comando do Destacamento de Operações Internas paulista.

No vídeo, o depoimento de Ustra à Comissão Nacional da Verdade



Em abril de 2015, a ministra do Supremo Tribunal Federal (STF), Rosa Weber, suspendeu uma das ações penais  contra Ustra que tramitava na Justiça Federal em São Paulo. Atendendo a pedido feito pela defesa do militar, a ministra disse, na decisão, que suspendeu a ação pois era necessário aguardar o julgamento da Lei de Anistia pela própria Corte. O militar morreu em 15 de outubro de 2015 no Hospital Santa Helena, em Brasília. Ele tratava de um câncer.

Hoje, Amelinha integra a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e é assessora da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo Rubens Paiva. Para ela, a homenagem de Bolsonaro a um de seus torturadores pode ser o resgate de uma das páginas mais tristes da história do Brasil.

“O que significa essa declaração do deputado é que ele quer que o Estado brasileiro continue a torturar e exterminar pessoas que pensem diferente dele. Que democracia é essa que quer a tortura, a repressão às pessoas que não concordam com suas ideias?”.

Edição: Fábio Massalli, com informações do Portal EBC