quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

A pequenez do atual governo ficará na sombra da grandeza do nosso SUS

 César Locatelli

A pandemia de COVID-19 não terminou, alertam os epidemiologistas e denunciam que as políticas de “austeridade econômica” têm levado a população brasileira a um enorme sofrimento. A Covid-19 agravou seriamente as condições socioeconômicas, em processo de deterioração desde a aprovação do teto de gastos.

Eles salientam o contraste entre a atuação, premeditadamente, errática do presidente, com a ocultação de dados e entre atrasos, erros e suspeitas de corrupção, e o número de brasileiros, cerca de 60%, que já receberam as duas doses de imunizantes ou a dose única, ultrapassando os EUA. Para os epidemiologistas, reunidos no 11º Congresso Brasileiro de Epidemiologia - EPI 2021, o número de vacinados reforça a confiança dos brasileiros em seu Sistema Único de Saúda.

                                                                            Foto: (Alan Carvalho/AGIF)

Ao final do Congresso foi redigida coletivamente uma carta dos epidemiologistas, transcrita abaixo, aberta à população.

***




Nós epidemiologistas, profissionais da saúde, estudantes de graduação e pós-graduação, reunidos no 11º Congresso Brasileiro de Epidemiologia da ABRASCO, vimos, através desta carta, denunciar as sérias condições socioeconômicas e de saúde que, agravadas pela pandemia de COVID-19 e pelas políticas de austeridade econômica, têm levado a um imenso sofrimento da nossa população.

A COVID-19 deixou um rastro de milhões de casos e de milhares de mortos no Brasil. Nos últimos dois anos nosso país sofreu enormes transformações que promoveram mudanças marcantes na vida dos brasileiros. O Brasil registrou o segundo maior número de mortes por COVID-19 no mundo, atrás apenas dos EUA. A política de enfrentamento à epidemia por parte do governo federal foi catastrófica! Agora, nos confrontamos com um enorme declínio econômico, a volta da fome, aumento desastroso do desemprego, e um cenário de ataques à ciência e à educação.

É sabido que a ocorrência de pandemias/epidemias como a COVID-19, AIDS, MERS, SARS, ZIKA, CHIKUNGUNYA, entre outras, são consequências da maior degradação ambiental ocorrida em nosso planeta nas últimas décadas. O Brasil, ao invés de reduzir seus ataques às nossas matas, tem promovido uma das maiores devastações da floresta amazônica e do cerrado deste século. Facilitou a “passagem da boiada” permitindo que grileiros, garimpeiros, madeireiros ilegais e assassinos de indígenas praticassem seus crimes livremente. O garimpo afetou gravemente as populações indígenas, destruindo suas reservas e envenenando seus rios e seus peixes, e levou o coronavírus para estas comunidades que, como consequência, tiveram as maiores taxas de mortalidade do país.

Desde que a pandemia se instalou no país, o Ministério da Saúde do Brasil teve quatro diferentes ministros, nenhum dois quais foi capaz de liderar o processo de mitigação da COVID-19. Muitas mortes poderiam ter sido evitadas e muitas famílias foram destroçadas. Estudos brasileiros comprovam que, além do boicote às práticas de prevenção, o chefe da nação, ativamente, concorreu para a disseminação da pandemia no país: rejeitou a gravidade do vírus, não providenciou testes, não organizou a atenção básica na pandemia, criou crises diplomáticas que interferiram na aquisição das vacinas, incentivou o uso de medicamentos sem eficácia científica comprovada e tentou impedir a implementação de medidas não farmacêuticas pelos governadores e prefeitos, permitindo que o SARS-CoV-2 se disseminasse por todo o país. Os maiores afetados por esta ação deliberada foram os idosos, os negros, as populações indígenas, as comunidades quilombolas e todos aqueles que vivem em maior vulnerabilidade.

Apesar de toda a inépcia, depois de um retardo de seis meses, as vacinas chegaram ao país, mas não na quantidade suficiente. Com isto, a vacinação avançou graças à resposta do Programa Nacional de Imunizações (PNI) que, apesar de sua desestruturação central, mostrou sua presença e capilaridade nos estados e municípios. Entre atrasos, erros e suspeitas de corrupção investigadas pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da COVID-19 no Senado Federal, cerca de 60% dos brasileiros já receberam as duas doses de imunizantes ou a dose única, ultrapassando os EUA. As coberturas alcançadas no Brasil contrastam com a forma premeditadamente errática com que o presidente Bolsonaro lidou com a pandemia. Relembram e reforçam a extensão da confiança que nós brasileiros temos no nosso robusto sistema de saúde público – o SUS, e no histórico de sucesso e de respostas rápidas a crises que muitas vezes conseguimos dar. Vencemos a pólio, o sarampo, o H1N1, nosso Programa Nacional de Controle da epidemia de HIV/Aids foi considerado um modelo mundial, nossos esforços na redução da mortalidade infantil e mortalidade materna e em inúmeras outras ações que, mesmo com reveses e dificuldades enormes, nos enchem de orgulho. Todos sabemos que a pandemia seria ainda muito mais devastadora se não tivéssemos o SUS.

Nossos desafios, contudo, ainda são enormes. Mais de 20 milhões de brasileiros com a primeira dose, ainda não tomaram a segunda dose e não estão, portanto, adequadamente protegidos. É urgente que os gestores de saúde promovam as condições para que o SUS faça a busca ativa destas pessoas, e vários municípios mostraram que isto é possível.

Realçamos, contudo, que mesmo depois de atingirmos o controle da pandemia, o SUS, cronicamente subfinanciado, continuará sobrecarregado, lidando com as demandas de saúde represadas e com as sequelas da COVID-19. Por isto, nossa luta pela revogação da Emenda Constitucional 95 que congelou os gastos públicos precisa ser incessante. Com todos os ataques, o SUS foi efetivo em garantir que a vacinação chegasse em todos os pontos do país. A pequenez do atual governo ficará na sombra da grandeza do nosso SUS.

Não podemos esquecer de que a pandemia nos atingiu em meio a uma crise política e econômica imposta sobre o nosso país com o golpe parlamentar de 2016 aprofundada pelas desigualdades já existentes. O Atlas das situações alimentares no Brasil deixa claro que no período entre 2004 e 2013 a fome e o risco de fome apresentaram uma tendência de queda, enquanto que entre 2017-2018 se observa um aumento dessas duas situações que se agravaram mais recentemente.

A alta vulnerabilidade em que se encontram diversos segmentos de trabalhadores ocupa centralidade no Brasil. As dificuldades quanto à garantia do emprego e da sobrevivência, marcam o atual momento histórico no país. A remoção de direitos e garantias sociais pela reforma trabalhista de 2017 ampliou as desigualdades e repercussões da atual crise sanitária. Como consequência, muitos trabalhadores não puderam atender às recomendações de distanciamento físico para contenção da COVID-19. Excluídos do mercado formal de trabalho passaram a depender de programas temporários e insuficientes de transferência de renda e muitos engrossaram a multidão daqueles vivendo em situações extremas de insegurança alimentar, sem saber se ou quando vão poder comer.

Hoje, se de um lado temos famílias desesperadas, buscando restos de alimentos no lixo ou comprando ossos para cozinhar; temos cerca de 15 milhões de desempregados no país; mais uns 50 milhões em trabalhos informais e outros novos empregos com salários menores, de outro lado, assistimos à concentração de renda ser incrementada durante a pandemia: 1% dos brasileiros mais ricos se tornaram donos de metade das riquezas do país. São tristes recordes que o Brasil insiste em ostentar, reforçando aquilo que há de pior da desigualdade social.

Não colher, esconder e manipular dados virou especialidade deste governo. Bolsonaro tentou substituir o sistema de medição de desmatamento da Floresta Amazônica para omitir os dados corretos. Enquanto seu ministro do Ambiente assinava compromissos na recente reunião da COP26, o país registrava desmatamento recorde e atrasou a divulgação de dados do monitoramento do desmatamento do Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (INPE). Na saúde, em meio à pandemia, em meados de 2020, o Ministério da Saúde ocultou o número total de infectados pelo SARS-CoV-2 e o acumulado de óbitos no país, tentando apagar o efeito desastroso de sua estratégia de deixar a transmissão do vírus circular livremente entre os brasileiros. Com o Censo Demográfico de 2021 persegue a mesma estratégia. O que foi dificultado pela pandemia em 2020, agora é adiado para 2022, sob alegação de falta de verba. A pesquisa, principal instrumento para a formulação de políticas públicas nas áreas da saúde, educação e situação das desigualdades, e que deveria ser realizada a cada 10 anos, não poderá revelar o panorama dramático resultante da crise econômica e social pós pandemia na população brasileira e o papel do governo.

Na educação o caos não foi menor. Os ataques do governo à ciência, às universidades e às agências de fomento à pesquisa são impiedosos. Os orçamentos da Capes e do CNPq caíram 73% desde 2015, e juntas, estas duas agências tiveram uma redução real de quase 10 bilhões de reais em seus orçamentos. O orçamento de 2021 é quase ¼ daquele de 2015. O Enem, exame que democratizou o acesso às universidades brasileiras, foi o mais excludente, com o menor número de inscrições, implicando em uma maior exclusão de estudantes de escola pública e de estudantes negros no ensino universitário.

Através de nossa entidade, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO), que agrega pesquisadores, profissionais e estudantes das diversas áreas da saúde coletiva, nos mobilizamos e juntamente com outras entidades de saúde e com o Conselho Nacional de Saúde elaboramos um Plano de Enfrentamento à COVID-19, que foi lançado publicamente em ato político no dia 3 de julho 2020 com a participação de muitas entidades, movimentos e parlamentares e no dia 28 de julho 2020 foi entregue ao Ministério da Saúde. Neste plano, analisamos a situação da pandemia e todas as suas consequências e apresentamos recomendações para autoridades políticas, sanitárias, gestores e sociedade em geral.

Neste congresso temas altamente relevantes sobre a saúde no Brasil foram amplamente apresentados e discutidos com participação de importantes nomes da comunidade científica brasileira e internacional. Debatemos exaustivamente a situação da pandemia de COVID-19 e é nosso dever e compromisso colocar nosso conhecimento e nossa experiência a favor da defesa da vida e da saúde dos brasileiros.

Temos a certeza que a saída da atual crise sanitária deverá ser de forma coletiva. É urgente fortalecer o SUS para que ele possa responder aos desafios atuais e futuros, assim como defender, de forma incondicional, todas as instituições brasileiras de ensino e pesquisa. Nosso compromisso é com a diminuição das desigualdades e com a garantia de acesso universal e público às ações de saúde e à educação. Assim sendo, apelamos para que toda a população entenda que a pandemia de COVID-19 não terminou, é necessário que todos tenham acesso a vacinação completa e que sigam as medidas de saúde pública que há quase dois anos repetimos em todos os espaços insistentemente: máscaras, distanciamento físico e evitar aglomerações. É nossa responsabilidade exigir que o governo federal cumpra seu dever de garantir saúde e educação para todos, direitos conquistados em nossa Constituição Federal.

Nos solidarizamos com todas as famílias que perderam seus entes queridos e conclamamos todas e todos para se somarem à luta em defesa da vida, da democracia e do SUS. Continuamos firmemente trabalhando e contribuindo para a superação desta que é a mais grave crise deste século. Viva o SUS!

Nota: as 10 conferências e a cerimônia de abertura podem ser vistas no canal 

               Cerimônia celebra os 20 anos do Mestrado em Saúde Pública ...


de YouTube https://www.youtube.com/c/T...  da Abrasco – Associação Brasileira de Saúde Coletiva




sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Os infômanos estão exaustos

 O filme-ensaio 'Sociedade do cansaço' desvenda os males do neocapitalismo no tempo da mensagem do 'sim, nós podemos'


Sobe ao palco das estrelas da cultura, dos que refletem sobre a nossa vida de hoje e o futuro que aguarda a espécie humana, o filósofo sul-coreano Byung Chulk-Han, de 62 anos, radicado na Alemanha, professor de Filosofia e Estudos Culturais na Universidade de Berlim.

O ex-estudante de Metalurgia em Seul quando jovem, é autor de vários ensaios com originais críticas à comunicação na sociedade atual do trabalho exaustivo, da hiper atividade e da auto-exibição; até como ferramenta de sobrevivência social ou profissional.

Esse rock star da cultura, como ironicamente o chamam os ressentidos com seu sucesso, é também autor de análises sobre o culto obsessivo às informações partilhadas compulsoriamente e oferecidas pelos smartphones que ''nos submergem em um turbilhão de atualidades, e são artigos do culto da dominação digital'', em suas palavras.

''O dispositivo age como um rosário. Mantemos o celular sempre ao alcance de nossas mãos e o like é o amém digital'', Byung escreve no seu livro Sociedade do Cansaço (Ed. Vozes/2015). Este é um dos seus trabalhos mais famosos da série de pequenos livros que vendem como água e esgotam nas principais livrarias do Rio de Janeiro; especialmente entre seus leitores jovens.

Fala-se até que as idéias de Byung Chulk Han estará incluído nas provas do próximo Enem, em novembro. Acho difícil. Em todo caso.

 Mas além dos seus livros, há um documentário, um ensaio-filme de cerca de uma hora, de autoria da artista plástica Isabela Gressner, narrado em alemão e legendado em português que pode ser encontrado no Youtube com o título Sociedade do cansaço. Vale assisti-lo. Além da boa qualidade cinematográfica acompanha com beleza plástica o pensamento filosófico de Byung.

Nele, o coreano reforça: mesmo com o amém digital continuamos nos ''confessando, nos desnudando e pedindo que... prestem atenção em nós''.

''A fadiga da informação é uma doença mental causada pela exposição excessiva a informações'', informa o filósofo no filme. ''As populações sofrem de depressão, ansiedade, falta de concentração e nervosismo. E a mídia digital veio multiplicar a quantidade de informações disponíveis, tendência exacerbada pelo smartphone com o qual a pessoa estabelece uma relação obsessiva e compulsiva''.

''No metrô, por exemplo', ele comenta num dos trechos das suas conferências e apresentadas no doc de Gressner, ''ninguém, nem as crianças, se entreolham e nem olham para outro lugar que não seja o próprio celular. É uma compulsão que me faz lembrar de zumbis com a alma vendida para os dispositivos digitais''.



Passeando pelas ruas de Seul numa das viagens anuais de inverno que ele faz ao seu país, Byung nos traz uma Coréia do Sul bem diversa do que o retrato que a mídia corporativa brasileira vende no noticiário sobre Seul, templo máximo do neoliberalismo bem sucedido segundo as notícias. Mas é justo lá que 50% dos que se encontram empregados revelam que trabalham mais do que deveriam e onde são grandes as tensões nos ambientes das empresas.

"A maioria contava com emprego estável, mas hoje trabalha com contratos temporários. É neste contexto que ''o smartphone se tornou uma espécie de novo e indispensável órgão do próprio corpo'', observa um dos entrevistados de Chulk-Han em Sociedade do cansaço. ''E eu gostaria de saber porque as pessoas amam tanto se expor,'' ele se pergunta.

No filme, o filósofo relembra suas referências: Hegel, Ehrenberg, Peter Handke, Wim Wenders, e conversa com o diretor de cinema Park Chan-wook. Reflete também sobre o alto índice de casos de suicídios na Coréia do Sul.

''Vivemos esgotados e deprimidos e estamos obcecados com informações e dados. Somos infômanos; somos pessoas que compilam e compartilham obsessivamente informações sobre sua vida pessoal'', diz Byung.

Na sua análise, a sociedade disciplinar e repressora do século 20 descrita por Michel Foucault perdeu espaço para uma nova forma de organização: a violência neuronal.

'' A onda do 'eu consigo' e do 'yes, we can', slogan utilizado pelo presidente estadunidense Barack Obama, tem gerado um aumento significativo de doenças. Depressão, transtornos de personalidade, síndromes como hiperatividade e burnout. Na sociedade do desempenho todos precisam ser autênticos, inovadores e produtivos''.

A série coreana Round 6, que vem estourando índices de audiência na Netflix, nos quatro cantos do mundo, reforça as observações de Byung e aponta na mesma direção. Ela traz um mundo distópico e violentíssimo no qual os participantes se dedicam com paixão e integralmente a um jogo que acena com a possibilidade de seus participantes ganharem fortunas para saldarem suas dívidas, mesmo com risco de morte. A crescente desigualdade social na sociedade coreana é um fato já denunciado.

Os altos níveis de suicídio na Coréia do Sul, um dos maiores do mundo, vão na contramão do impulso sugerido pelo aumento de 100% na busca por aulas do idioma coreano, aqui, nos cursos de idiomas brasileiros, em comparação com um ano atrás. O aumento nessa demanda começou no último verão, mas foi impulsionado pela popularidade da série Round 6.

Alguns dos pontos abordados no documentário são assuntos de outro livro de Chulk-Han. Em Sociedade da transparência o autor comenta como o significado de honestidade perde valor na atual ''sociedade da desconfiança''. E diz: ''Acreditávamos que o espaço da comunicação seria um espaço de liberdade; mas os espaços de liberdade estão se tornando espaços de controle''.

''Controle e exploração são realizados através de exploração voluntária, de exibição. Essa é uma compulsão que deriva da lógica do capital. Quanto mais comunicação, mais ganha o capital''.

No inquietante filme, Byung conclui: ''O projeto de liberdade tão caro à civilização ocidental pode ter fracassado. O 'sim, nós podemos', pode ser um grito de liberdade, mas pode conter também um aspecto diabólico''.

O fato é que suas idéias, além de uma advertência, são um fértil campo para debates sobre o tema da comunicação digital e o bombardeio de informações de toda espécie a que somos submetidos.




sábado, 23 de outubro de 2021

Em primeiro lugar, os nossos cérebros foram hackeados II

 Der Spiegel, Nr. 40, 02.10.2021, p.42-9. Tradução: Hans Alfred Trein                                                                                         

Conspiração. Nós acreditamos aquilo que nos serve e nos parece convincente e, então, procuramos por comprovações e argumentos que defendam nossa postura.

Em primeiro lugar, os nossos cérebros foram hackeados. Em 2009, o Twitter introduziu sua função “retweet” e o Facebook sua função “like”, que o twitter, então, copiou; tornaram se logo funções-padrão na rede. A combinação com a função “compartilhar” possibilita aos usuários disseminar imediata- e irrefletidamente quaisquer conteúdos em toda sua rede social. “Também poderíamos ter dado uma arma carregada na mão de uma criança de 4 anos”, diz Chris Wetherell, que desenvolveu a função retweet no twitter. “E eu acredito que foi isso que, na verdade, fizemos”.

Graças à essa dinâmica eu posso participar de algo com pouco ou nenhum empenho ou risco pessoal e me esconder no anonimato, caso algum grupo de pessoas se indigne. A vítima e eu, talvez nem nos conheçamos. Eu nem mesmo faço ideia sobre se ela poderia perder seu emprego, ou sobre o ostracismo que ela experimenta, pois empatia e consciência de responsabilidade são substituídas por indignação e anonimato.

Enquanto ela sofre em ser envergonhada ou mal falada, vou acreditar que a vítima o mereceu. Minha fúria não é uma fúria comum, não é uma emoção cara à cara, que poderia possibilitar uma interação e levar a uma reconciliação ou a novos reconhecimentos. Nós, da bolha, cremos que o objeto de nossa indignação é uma ameaça ou um traidor. Mesmo quando a vítima estava bem intencionada, ela o deveria ter sabido melhor e, em todos os casos, sua vergonha serve de advertência a outros.

Assim somos alimentados com indignação por mídias clickbait (isca para clicar), ativistas e fazendas estatais de trolagem, apoiadas por software que observa cada clic. Um tal sistema pode nos impedir de trocarmos ideias com pessoas que veem a realidade de outra forma. O que dizem os outros? Quais são nossas diferenças? Mais estranho ainda é que somos influenciados por um software que não nos explica o que nos mostra. Ele aprende o que clicamos e o que outras pessoas que nos são similares clicam, fabrica um avatar virtual de nós e passa a nos alimentar com tudo o que o nosso avatar quer. Ninguém consegue compreender por que vemos o que vemos. Ninguém sabe o que os outros veem. Nem mesmo as máquinas sabem o que seus algoritmos fazem.

Mídias digitais não são concebidas de maneira que elas nos obriguem a reconhecer nossas diferenças e de nos compelir a que busquemos consenso. Elas não querem produzir uma realidade comum. Ao invés de diminuir o fluxo de informações, pois elas precisam ser testadas e comprovadas, as mídias digitais premiam o imediatismo e a impulsividade, emoções ao invés de objetividade. Em vez de repudiar agressões pessoais, elas as promovem.

Eu tenho 61 anos. Em minha infância havia nos EUA três emissoras de TV, dois magazines de notícias e um ou dois grandes jornais em cada cidade. Não importa, se a gente tem saudades dos velhos, bons tempos, ou se a gente está feliz, que a era das grandes mídias tenha passado: há uma razão por ter havido tão poucos porteiros e que eles agiam com tanto sucesso. A informação pode ser livre, mas saber é caro. Uma grande reportagem investigativa ou um estudo acadêmico exigem o trabalho de experts e muito dinheiro.

Até por volta de 2016, não importava muito às lideranças e aos técnicos do mundo digital, se as informações a que davam uma plataforma, eram verdadeiras ou não, se é que em absoluto pensavam a respeito. Prescrever às pessoas o que devem postar? Deixem florescer 1000 flores! Não é nossa tarefa, controlar o mundo online! Contudo, o ano 2016 com a vitória de Trump, e o impacto da influência nas eleições norte-americanas por redes de direita e atores destrutivos e estrangeiros mudou muita coisa.

Por que? O Facebook, por exemplo, não é apenas uma plataforma. Também é uma comunidade, e comunidades implodem quando sociopatas enlouquecem. Além disso, Facebook é um empreendimento, e uma empresa se torna não rentável quando ela se torna tóxica para os seus clientes ou para a sociedade. Quando usuários inundam a rede com material que assusta e traz insegurança a outros usuários, afugenta anunciantes, que envenena a marca e que é sistematicamente inverídico, a empresa terá de escolher o que e como algo será disseminado de maneira proeminente. Em alguns casos, excluirá conteúdos ou usuários totalmente. Para dizê-lo resumidamente: terá de encontrar um equivalente para a tecnologia “killer app” das velhas mídias: revisão redacional.

 

Os melhores trolistas. Wladimir Putin deve estar com inveja de Donald Trump, que descobriu, como se transfere estratégias de desinformação em estilo russo para a política americana.

 

Já faz tempo que as grandes redes sociais começaram a dar-se um revestimento institucional. Desenvolvem normas e incentivos, para levar seus usuários a mudar seu comportamento. O que começou com algumas equipes de checadores de fatos que realizavam um punhado de verificações aleatórias, desenvolveu-se na direção de uma rede global que coopera com Facebook, Google e Youtube.

Veremos o que funciona e o que não funciona. Alguns experts contestam que a checagem de fatos faça alguma diferença. No entanto, mais importante é: o que antes era guiado por decisões comerciais e preconceitos ideológicos, está sendo repensado. De qualquer modo, agora está claro que a pretensa neutralidade das plataformas sempre foi aquilo o que na verdade é: um pretexto, uma desculpa esfarrapada!

Um sociopata é alguém que não aceita normas sociais. Violações de regras e uma certa falta de vergonha podem fazer sentido, pois inovações na economia, na política ou na arte vivem de atitudes que ignoram limites. Contudo, violações demasiadas conduzem à ruína de uma ordem social pacífica – mais ainda quando ela é liberal, que depende de todas as pessoas, em princípio, seguirem as mesmas regras.

Sociopatas ambiciosos reiteradamente levaram ordens liberais à queda, mas as modernas democracias liberais do ocidente, por muito tempo, pareciam estáveis. Desde o início do século 21, no entanto, tecnologias digitais e mídias sociais trouxeram à luz uma quantidade infinita de enxames anônimos. A partir do momento, em que estes se vincularam com atores estatais, primeiro com Putin, Orbán, Erdogan e daí com o presidente dos Estados Unidos, uma forma imperscrutável e assustadora de desinformação digital ganhou relevância.

Por propaganda entende-se influenciar a opinião pública, sem respeito à verdade, muitas vezes (mas nem sempre), por atores estatais – a desinformação como guerra psicológica e informadora. O objetivo: desmoralizar, desmotivar, isolar, intimidar. Trolls modernos veem isso de modo semelhante. Quando os russos iniciaram a sua agressão informativa às eleições estadunidenses em 2016, não acreditavam em com isso alçar Donald Trump à cadeira presidencial, mas esperavam polarizar os Estados Unidos e tornar o país menos governável. Foram exitosos nisso.

As agressões não visam pessoas ou temas individuais, mas sim todo o espaço da informação. Steve Bannon, o antigo chefe de “Breitbart News” e posterior estrategista-chefe de Trump, disse certa vez: “A verdadeira oposição são as mídias. E o jeito de lidar com elas é: Flood the zone with shit - inunda a região toda com merda”.

Não há descrição mais precisa do que se trata, quando falamos de modernas guerras de informação. Comunidades estão sujeitas a redes de confiança, que filtram o que é verdade e o que não é. As pessoas tem de saber, com quem estão falando, se essa pessoa é digna de confiança, quais instituições comunicam credibilidade e assim por diante. Confiança e credibilidade são afetadas, quando o ambiente está inundado.

Quando, em 2018, agentes russos envenenaram Sergej Skripal e sua filha, as mídias russas atribuíram a culpa à Grã-Bretanha. Ou à Ucrânia. Ou a ambos. Ou talvez tenha sido um acidente. Ou suicídio. Ou um assassinato por vingança de parentes. Ou tudo junto. Também se dizia que a Rússia não fabricava o material danoso aos nervos que fora utilizado. Ou que tinha sido utilizado um material danoso aos nervos completamente diferente. “O caráter contraditório das afirmações não é um erro da propaganda do Kremlin, mas sim intenção”, escreveu o “The Economist”. “O propósito da campanha de desinformação consiste em afogar os serviços secretos ocidentais em uma cacofonia de afirmações desenfreadas, em vez de oferecer uma narrativa contrária coerente”. Uma chave para o sucesso de qualquer campanha de desinformação é que as mídias e os ecossistemas políticos das sociedades agredidas absorvam as informações falsas e as reforcem.

O jornalista britânico, Peter Pomerantsev, trabalhou em Moscou, nos anos noventa, e experimentou como a propaganda russa foi mudando. “No comunismo”, diz ele, “queria-se convencer as pessoas, de que um excelente futuro socialista estaria à sua frente. A nova propaganda se concentrava em causar confusão e disseminar teorias de conspiração”. O Kremlin não utilizava o seu controle sobre a mídia, para motivar a população a apoiar o governo, mas sim, para desmotiva-la. “Quando se está rodeado de teorias de conspiração, tem-se a sensação de não conseguir mudar nada; não há absolutamente nada, em que a gente possa se orientar”, diz ele. “A metanarrativa (o que está por trás): não existe alternativa à Putin”.

E, mais uma coisa mudou. A censura tradicional parte do princípio de que as informações são escassas, e que sua distribuição entre o público pode ser bloqueada ou restrita. Na era digital, o cientista jurídico americano, Tim Wu, escreve que há informações (boas e ruins) disponíveis em abundância. Por que, então, não apostar mais em chamar atenção ao invés de bloquear informações? Se o espaço é inundado com distração e lixo, consegue-se manter a atenção do público e domina-lo.

O que acontece, quando não se tem segurança sobre se a gente é manipulado ou enganado? A gente parte do princípio de estar sendo sempre manipulado. Ou a gente se recolhe com seus amigos online para uma versão própria e privada da realidade. Ou cai na lábia de um político demagogo, de quem se absorve toda palavra que diz.

Já em 2013, muito tempo antes de Donald Trump iniciar sua carreira política, ele foi referido em um tweet como “most superior troll”, o melhor de todos os trolls. “Um elogio excelente”, foi o seu comentário. Trump, seu estrategista Bannon e seus seguidores sabiam o que estavam fazendo, e eram bons nisso.

Trump disseminava mentiras e distorções em proporções inimagináveis; foi isso que os muitos verificadores de fatos constataram. Em janeiro de 2020, os checadores de fatos do “Washington Post” registraram 22 afirmações falsas por dia. Assim como as desinformações russas, também as mentiras de Trump não eram apenas falsas, mas ridiculamente falsas. Ninguém era pra ser convencido de qualquer coisa, era apenas uma demonstração de que as regras normais estavam sendo abolidas e que o líder disso era a mais alta autoridade.

Mal no cargo, ele afirmou que a multidão em sua posse teria sido maior do que na posse de Obama – apesar de as fotografias provarem o contrário. Num dia ele dizia que o processo de impeachment causaria danos ao mercado de ações, no outro dia, ele se gabava, de que o mercado tinha alcançado novos recordes de ganhos. Quando em uma reunião ministerial transmitida ao vivo definiu o sistema penal como uma piada e uma chacota, algumas horas depois, a Casa Branca desmentiu que Trump tinha dito aquilo.

Trump e seus apoiadores transformaram o espaço da informação num circo. Eles atiçavam a paranoia, repetindo e reforçando teorias de conspiração. Ignoravam todas as contestações objetivas, repeliam todas as acusações e chamavam todas as mídias baseadas na realidade de “Fake News”. Estudos científicos indesejados declaravam como “perseguições políticas”. Empregavam indignação como uma arma, manipulavam a agenda pública e assim determinavam os debates nacionais. Produzindo um redemoinho de distorções e distrações, conseguiam desviar a atenção sobre sua corruptibilidade e incompetência. Nenhum estudante de ciências da informação contestaria que Trump, de fato, é “o melhor de todos os trolls”.

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

A Destruição da Verdade I

Der Spiegel, Nr. 40, 02.10.2021, p.42-9.                                                                                                          Tradução: Hans Alfred Trein

Guerras de Informação:  Desinformação e Fake News, teorias da conspiração e Cultura do Cancelamento – Por que sociedades liberais não conseguem mais concordar a respeito de uma realidade comum. De Jonathan Rauch

O dia 6 de janeiro provavelmente foi o dia mais obscuro para a democracia americana, desde a Guerra Civil, há mais de 150 anos. Milhares protestavam diante do Capitólio em Washington, na esperança de impedir a pacífica transferência de poder de Donald Trump a Joe Biden. Símbolos cristãos. Forcas. Homens equipados para o combate. Pessoas derrubando barreiras de contenção. Agentes de segurança batidos com paus de bandeira e placas de proteção capturadas, obcecados com gás irritante, um deles implorando por sua vida: “Eu tenho filhos!” Vidros estilhaçados, portas se abriam, do lado de dentro os demonstrantes caçavam os porta-vozes do Congresso e o Vice-presidente, talvez para sequestrá-los, talvez para matá-los. Membros do Congresso, que naquela hora estavam por confirmar o resultado das eleições, tinham de ser resgatados de seus perseguidores.

Obviamente esse dia narra uma grande crise política – de um partido político, os Republicanos, cuja base está crescentemente desiludida e radicalizada e cujos líderes não conseguem e nem querem mais controlar seus seguidores. Mas, ele narra também uma guerra de crenças. Fala de pessoas que não conseguem mais concordar a respeito de uma realidade comum, nem de como resolver as suas diferenças. A gente poderia chama-la de uma guerra civil epistêmica.



      The Constitution of Knowledge: A Defense of Truth
                                                                Jonathan Rauch
   

Epistemologia é um conceito da filosofia que soa um tanto esotérico, que achou seu caminho para fora das torres de marfim das universidades para dentro do senso comum. Na teoria do conhecimento trata-se da questão: de onde e como sabemos o que sabemos. O que é a realidade? O que é a verdade? Os invasores do Capitólio foram considerados rebeldes que queriam destruir a democracia. Eles mesmos, entretanto, enxergavam-se como salvadores dela, pois estavam convictos de que a eleição tinha sido roubada e que tinha sido perpetrada uma grande fraude. Mais da metade dos Republicanos ainda acredita que Donald Trump ganhou a eleição. E uma grande parte deles ainda responsabiliza os Democratas pelos tumultos no Capitólio.

“The Misinformation Age”, “Truth Decay“, „Post-Truth“, „The Death of Truth“ são títulos de livros de cientistas e estudiosos que temem, estarmos perdendo a capacidade de distinguir verdade de inverdade, ou de nem acreditarmos mais, que haja uma distinção. “Se não estivermos mais em condições de distinguir o verdadeiro do falso”, assim diz Barack Obama, “então a nossa democracia não funciona em seus fundamentos”.

Também Obama fala de uma crise epistêmica, na qual a América está atolada. Contudo, a Europa não deveria sentir-se tão segura. Também lá a mídia social dissemina indignação, estados dispersam desinformações, partidos extremistas estão em ascensão, teorias da conspiração estão crescendo, a insatisfação com os políticos e as elites estabelecidas está aumentando. E, será que o municiamento da campanha pelo Brexit já não foi um prenúncio para a espantosa vitória de Trump? Ou será que o assalto ao Reichstag em Berlim por extremistas e negacionistas do Corona, em agosto, há um ano já não foi uma premonição do que aconteceria no dia 6 de janeiro em Washington? Durante a pandemia, formou-se na Alemanha uma realidade alternativa a partir de teorias da conspiração, fixações direitistas e ideologia de contrários à vacinação. E, um pouco mais a leste, estão demagogos e déspotas como Viktor Orbán, Recep Tayyip Erdogan e Wladimir Putin, que projetam suas próprias versões da verdade.

Seres humanos conseguem concordar fundamentalmente apenas sobre poucas coisas, todavia até há pouco, parecia haver consenso nos EUA e na Europa sobre como lidar com diferenças de opinião e como superá-las: através de um debate social baseado em regras com o objetivo de se convencer mutuamente. Chamo esse processo e suas regras e instituições The Constitution of Knowledge, uma espécie de lei fundamental, não escrita do saber.

Todas as constituições dispõem de sistemas sociais, para produzir algo como verdade, pelo menos para o espaço público; uma vez, se confiava nesse mister sobretudo em autoridades como príncipes, sacerdotes, e sedes de partidos políticos. A lei fundamental do saber, como a constituição dos EUA e outros regimes políticos liberais, rompeu com tudo isso. Governantes foram substituídos por regras e autoridades por pesquisadores e estudiosos, desviantes não foram mais combatidos como hereges, mas estabeleceu-se uma cultura de crítica e de busca pelo erro.

Como gerador de saber, liberdade e paz, esse sistema é a melhor tecnologia social já inventada pelo ser humano. Entretanto, é um sistema que se baseia em não apenas tolerar manifestações críticas ou escandalosas, mas de até mesmo protege-las, por mais que elas sejam enganosas, rebeldes, blasfemas ou fanáticas. Trata-se de um princípio totalmente contraintuitivo, chegando mesmo ao paradoxo, porque qualquer impulso humano se defende contra elas, cada geração acha novos motivos de se lhe contrapor.

Um tal sistema não se mantém por si mesmo. Ele depende da integridade das elites e do apoio pela opinião pública. Ambas estão ameaçadas na América, como não estiveram desde os anos 1850, quando uma campanha de desinformação dos favoráveis à secessão no Sul instigava a paranoia e a febre bélica. Vemos, hoje, na América e em muitos outros países, como os instrumentos da guerra moderna de informações são refinados e usados, para dividir, desorientar e desmoralizar. E todos nós somos o público-alvo.

A ameaça vem de duas direções. De uma cultura de trolagem que dissemina desinformações e realidades alternativas. E de uma cultura do cancelamento que obrigatoriamente quer fabricar conformidade e excluir aquelas pessoas que pensam diferentemente. Uma é preponderantemente de direita e populista, a outra majoritariamente de esquerda e elitista. Uma aposta no caos e na confusão, a outra em adequação e pressão social. Contudo, suas intenções se assemelham e, muitas vezes, estranhamente, elas agem como se fossem de fato aliados em suas aspirações de balançar as regras de nossa produção de conhecimento.

Ambas, a cultura da trolagem e a cultura do cancelamento apostam nas técnicas da moderna guerra de informações. Ambas as culturas são expansivas e sabem como tirar proveito de nossas fraquezas humanas. Ambas conquistaram importantes posições institucionais, a Casa Branca bem como partes essenciais do mundo acadêmico. E ambas vivem da celeridade e do impacto de tecnologias digitais.

Desde Platão, os filósofos sabem que os sentidos enganam e que a crença pode errar. Mas, por muito tempo, partiam do princípio de que as pessoas humanas mesmo assim, por sua natureza, buscam a verdade e que a razão - essa dádiva divina exclusiva à nossa espécie - nos dirige. Entretanto, o assunto é mais complexo.

Nossa percepção sofre de todo tipo de distorções. Somos preconceituosos, porque nosso cérebro está voltado a fazer determinadas suposições ou previsões, para poupar tempo e energia. Na savana, para escapar a perigos mortais. Em pequenos grupos tribais, onde é necessário confiar nas informações e na proteção de outros. E também numa sociedade moderna, na qual quase ninguém tem tempo, para fazer uma imagem completa de um político ou de pessoas que encontramos. Contudo, num mundo complexo, em que temos de tomar decisões diferenciadas, nossos preconceitos não apenas podem nos conduzir ao engano, mas eles nem nos permitem chegar à ideia, de que poderíamos estar errados.

Acreditamos naquilo que nos parece apropriado e convincente e, então, procuramos por provas e argumentos para defender nossa posição. É como se a gente visse três gatos pretos e tirasse daí a conclusão de que todos os gatos são pretos, sem fazer o esforço de procurar por gatos que talvez não sejam pretos. Todavia, deveríamos buscar por informações e opiniões que nos questionam. Lamentavelmente isso, muitas vezes, é a última coisa que fazemos. Encontrar os próprios erros e corrigi-los é difícil e desagradável.

Quando um grupo se define por uma convicção comum, esta pode receber o papel de uma religião. Rejeitar uma opinião que vem de pessoas que pensam da mesma maneira é difícil. O grupo assume o pensar por nós. Para dizê-lo de outra forma: nós pensamos com nossas tribos. O psicólogo social, Jonathan Haidt, de Nova York, o formulou da seguinte maneira: quando se trata de discussões sobre temas de grande carga moral, as pessoas são “muito mais preocupadas com a aparência e a sua reputação, do que com aquilo que verdadeiramente pensam”. Para Sócrates, provavelmente, era mais importante ter razão do que ser benquisto, mas a maioria de nós prefere manter sua boa fama junto aos companheiros e companheiras de tribo. Uma decisão, sem dúvida, razoável. Sócrates foi executado por seus concidadãos.

Grupos, comunidades e até mesmo nações em sua totalidade podem desenvolver cultos a pessoas e decair em ideologias que se encontram em rota de colisão com a realidade. Trata-se de sistemas que não estão em condições de se corrigir, sem se autodestruir. Pensa na Alemanha nazista ou na União Soviética.

Se um sapo tivesse uma teoria errada sobre como pegar moscas, ele só conseguiria corrigi-la, morrendo. E poderiam passar gerações, até que a espécie sapo se livrasse de seu equívoco. Seres humanos aprendem melhor que sapos, e mesmo assim, por muito tempo, não colocamos em dúvida as nossas ideias e imaginações, tratando-as como sendo vontade de Deus. Em vez de mandar nossas convicções erradas pro diabo que as carregue, as declaramos intocáveis, santas. Achar e livrar-se de erros, muitas vezes, durava gerações e exigia muito derramamento de sangue; muitos erros nunca foram corrigidos.

“Deixem morrer as teorias e não as pessoas”, este é um pensamento central do filósofo Karl Popper. Nenhum cientista deve pagar com sua vida ou sua liberdade por um erro. O que lhe possibilita cometer novos erros a cada novo dia, pois erros são a matéria prima para a produção de saber. Novas teorias são como mutações: a maioria fracassa, mas algumas poucas terão êxito e tracionarão, impulsionarão a evolução. Quando os erros estiverem excluídos, ao final permanece o conhecimento.

Da ideia de Popper a respeito da ciência, como um sistema que procura erros, não estamos longe das atuais teorias de rede: Saber objetivo em um mundo incerto não se baseia nos conhecimentos de um indivíduo, por mais genial que possa ser, mas numa rede social.

Nós, hoje, vivemos num mundo progressista e mais ou menos pacífico, por estarmos em condições de sermos mais espertos a respeito de nossos preconceitos e preferências tribais. Não estamos condenados a acreditar em tudo que nos contam. A evolução nos habilitou a classificar uma grande quantidade de informações e de rejeitar o que é falso e danoso. Se, quando e quantas vezes pensamos bem e corretamente, depende de como projetamos o nosso contexto social e as nossas sociedades.

Esse sistema de um mundo liberal não é perfeito, nem mesmo por aproximação. Mas, no decurso de sua história, gerou, acumulou e disseminou saber numa celeridade de perder o fôlego. Hoje, a cada dia, se acrescenta mais saber a esse cânone dos saberes do que em 200.000 anos de história da humanidade, antes de Galileo Galilei. E o fato de a maioria das inéditas inovações mundiais ser desenvolvida, onde as ideias são livres, certamente não é um acaso.

A lei fundamental do saber tem duas regras decisivas. A primeira diz que ninguém tem a última palavra. Um conhecimento é sempre apenas provisório e só vale pelo tempo em que resiste à sua comprovação. Ninguém, nenhuma autoridade, nenhum ativista pode decidir ou impedir um debate de modo definitivo, nem determinar de antemão o seu resultado. Quem tentar isso, também se distancia da produção de saber.

A segunda regra exige renúncia à autoridade pessoal. Cada afirmação tem de ser comprovável para qualquer pessoa. Ninguém que proponha uma tese, recebe um cheque em branco, não importa quem ele seja ou a que grupo pertença.

Ambas as regras excluem muitas manobras retóricas que podemos verificar diariamente nos debates. Que uma discussão seja por demais perigosa ou blasfema, muito opressiva ou traumatizante viola quase sempre a regra: não existe última palavra. Afirmações que começam com “Como Judeu” ou “como gay” ou “como ministro da informação” ou “como Papa” ou “como “chefe do Soviét supremo”, podem até fazer sentido, para criar contexto ou dar referência; porém como argumento violam a regra: nenhuma autoridade individual.

Eu me imagino os nós institucionais como estações de filtragem e de bombeamento, pelas quais as teorias e as ideias fluem. Cada estação recolhe e avalia as teses, compara-as com o saber armazenado, procura por erros e distribui as teses que sobrevivem a outras estações que fazem o mesmo. Importante, é que essas estações formem uma rede, não uma hierarquia. Nenhum porteiro individual pode decidir, quais hipóteses entram ou não entram no sistema. Teses mal fundamentadas não conseguem passar. Não têm vida longa. A conjugação de bombeamento e filtragem dirige as informações na direção da verdade.

Agora, imaginem-se que o sistema trabalharia na direção inversa, porque, numa noite dessas, um demônio maligno tivesse hackeado o centro de controle, fazendo com que as bombas e os filtros, ao invés de filtrar erros, simplesmente os passassem adiante. A disseminação de afirmações falsas e enganosas não seria diminuída, mas acelerada. Agressões pessoais não seriam excluídas, mas estimuladas. Expertise seria substituída por diletantismo. Hipóteses não seriam verificadas, mas compartilhadas. Exposição constrangedora seria mais importante do que comunicação. Fontes não seriam citadas, mas veladas. Esse sistema não produziria conhecimento nem verdade. Não seria uma tecnologia de informação, mas de desinformação.

Ninguém previu que algo dessa natureza estava vindo. Nós – inclusive eu – tínhamos a expectativa de que a tecnologia digital ampliaria e aprofundaria o mercado das ideias. Mais teorias, mais testadores, mais saber. Como não pensar que isso poderia ser um salto para frente?

Lamentavelmente esquecemos que a nossa relação com a realidade depende de regras e instituições. Esquecemos que a superação de nossos preconceitos cognitivos e tribalmente condicionados dependem precisamente de acolhermos essas regras e instituições e não superficializa-las a se tornarem meras “plataformas”. Com outras palavras: Nós esquecemos que tecnologia de informação se distingue muito de tecnologia do saber. Informações podem ser simplesmente transmitidas, mas saber é o produto de uma interação social complexa, saber precisa ser resultado de trabalho. Para transformar informações em saber num mundo digital, é imprescindível tomar algumas decisões conceituais importantes. Lamentavelmente as mídias digitais tomaram as decisões erradas.

Todo o sistema foi otimizado no sentido de criar um público rápido em reagir em cima de informações que se quer passar às pessoas, sendo que a correção das informações (isso na melhor hipótese) só desempenha um papel marginal. As métricas, os algoritmos e os instrumentos de otimização são sensíveis no que diz respeito à popularidade de seus conteúdos, mas a verdade lhes é irrelevante. Estão exclusiva- e impiedosamente orientados por clics e acessos às páginas.

Uma tecnologia de informação, que entrega tanto resultados falsos como verdadeiros na mesma proporção e que não é capaz de distinguir entre ambos, não é funcional. Contudo, não é exatamente disso que precisamos: sistemas de informação que nos protegem de equívocos e preconceitos? As instituições e os padrões da ciência moderna e do jornalismo não foram criados precisamente para isso? O modelo de negócios das mídias digitais garante uma corrida pela atenção. Todavia, além disso, desenvolveu características que não são apenas cegas para informações falsas, mas até mesmo as reforçam.

Jonathan Rauch, nascido em 1960, em Phoenix, Arizona, é colaborador da Instituição Brookings, um Thinktank em Washington, que é relacionado ao Centro Liberal. Rauch trabalha como jornalista e escritor de livros. Em junho, apareceu o seu novo livro “The Constitution of Knowledge”. A defense of Truth”. A edição alemã está em preparação no Hirzel Verlag Stuttgart.



sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Leituras: A Peste, texto de Raí no jornal Le Monde

Leituras: A Peste, texto de Raí no jornal Le Monde:   A peste, texto de Raí no jornal Le Monde Share on facebook FACEBOOK Share on twitter TWITTER Share on linkedin LINKEDIN Share on email EMA...

A Peste, texto de Raí no jornal Le Monde

 


A peste, texto de Raí no jornal Le Monde

Share on facebook
FACEBOOK
Share on twitter
TWITTER
Share on linkedin
LINKEDIN
Share on email
EMAIL
Share on whatsapp
WHATSAPP
Share on telegram
TELEGRAM

Que me perdoem Camus, seus estudiosos e milhões de admiradores, peço licença para repetir aqui algumas de suas palavras, do clássico “A Peste”, de reivindicar tua audácia, uma ousadia à imagem das tuas, para me ajudar neste momento de súplica rebelde, deste espasmo de “combat” e de “combattant”, diante de atos desumanos e suas terríveis consequências.

Como brasileiro, como tantos outros e perante o mundo, assumo aqui que estamos habitados, sitiados, nestes tempos sombrios de nossa história, por mais de uma terrível peste. Este duplo flagelo, cujas devastações são apenas o acréscimo de nossos próprios erros coletivos, que pode contaminar muito além de nossas fronteiras.

Além da “Peste” biológica, epidemia pessimamente gerida, causadora da maior crise sanitária da história do Brasil, temos outro mal, que no longo prazo pode deixar terríveis sequelas ainda mais profundas. A peste antidiplomática que nos isola, a peste que corrói a Amazônia, o meio ambiente e persegue os que a protegem, o mal que distancia a vigilância e permite passar a boiada, aceita garimpos em reservas indígenas, que prefere troncos deitados a vê-los em pé, vivos, pragas cúmplices dos responsáveis por estes crimes. Também a peste que castra liberdades, ameaça a democracia e resgata a censura, a peste preconceituosa que promove a intolerância, a homofobia, o machismo e a violência.

Enfim, a Peste que nos destrói, destrói a razão e o bom senso, que perturba nossa essência, nossa consciência e nega a ciência. A Peste que promove o ódio é inimiga das artes e da cultura. Ela, que tem suas próprias variantes, é obra de um clã. Associada ao distanciamento, ao negacionismo, a desinformação, a mentira, acaba por reprimir, mesmo que temporariamente, nossa revolta, resistência e indignação.

Citamos Camus: “Os flagelos, na verdade, são uma coisa comum, mas é difícil acreditar neles quando se abatem sobre nós. Quando estoura uma guerra, as pessoas dizem: ‘Não vai durar muito, seria estúpido’. Sem dúvida, uma guerra é uma tolice, o que não a impede de durar. A tolice insiste sempre, e nós a compreenderíamos se não pensássemos sempre em nós”

Sim, aqui do outro lado do Atlântico, este oceano que nos separa e nos aproxima, amigo francês, vemos de tudo. Da “ocupação” de boa parte de nosso espírito, até ideias muito próximas de um nazismo medíocre, ao menos de um ideal genocida de poder, que se pretende genocida de ideias, mesmo que para isso a morte de concidadãos enteja no caminho, nem que para isso aconteça um massacre humanitário, desnecessário, com centenas de milhares de mortes evitáveis.

O mal está espalhado: meio ambiente, relações internacionais, Fundação Palmares, direitos humanos. Chegamos ao cúmulo de assistirmos um certo secretário de Cultura parafraseando em rede nacional o discurso de Joseph Goebbels, ministro de Adolf Hitler antissemita, maldita alma da pior das ideologias.

“Tinham visto morrer crianças, já que o terror, há meses, não escolhia, mas nunca lhes tinham seguido o sofrimento minuto a minuto, como faziam desde essa manhã”.

No nosso caso (que revoltaria ainda mais os personagens de Camus), morrem inocentes por falta de oxigênio, e/ou por falta de leitos.

É preciso então, mais que resistir. Contra este peste brasileira que veste um terno sombrio com seu sorriso astuto, ataca seus adversários com repressão, agressão e perseguição, resgatando “sobras legais” herdadas da ditadura, como a lei de segurança nacional. Nosso Brasil, depois de ter passado por 20 anos de torturas, assassinatos, censuras, pensávamos nunca mais sofreríamos deste mal.

Ainda Camus: “O padre dizia que a virtude da aceitação total de que falava não podia ser compreendida no sentido restrito que lhe era habitualmente atribuído, que não se tratava da banal resignação, nem mesmo da difícil humildade“. “Era por isso – e Paneloux afirmou ao seu auditório que o que iria dizer não era coisa fácil – preciso querê-la, porque Deus a queria”.

“O Brasil acima de tudo e Deus acima de todos” Este era o slogan da última campanha presidencial, esta que acompanhou a vitória do inominável. Alguns de nós já imaginávamos que por detrás destas palavras, se escondia a carne do mal coberta pela fake pele de um fake salvador da pátria, uma clara tentativa de iludir cidadãos de boa-fé, evangélicos, fiéis e crentes de Deus, já feridos e traídos em sua cidadania, querendo fazer crer que toda e qualquer atitude de seu governo segue princípios divinos.

Pois me diga, que Deus seria este que destrói e coloca a vida humana em um plano tão desprezível?

“Porque ele sabia o que essa multidão eufórica ignorava e se pode ler nos livros: o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, espera pacientemente nos quartos, nos porões, nos baús, nos lenços e na papelada. E sabia, também, que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz”.

E me permita completar, e em meu país, perigosamente distraído.

O Brasil que queremos e que o mundo precisa, também negou o horror que se aproximava. E, portanto, há décadas os ratos já estavam aqui mostrando seus rostos e dentes, de olhos revirados, afiando suas unhas. E não nos atentamos. Será que nós, concidadãos, e sobretudo nosso parlamento, também somos negacionistas/cúmplices, ao não querer enxergar o tamanho do perigo, ao nos sujeitarmos a este poder já manchado de sangue e de crimes?

Eu sei que longo prazo, e seja qual for o país, o homem corajoso, o cientista, o resistente conseguirão juntos derrotar o mal. Aqui, não será tão simples assim, porque carregamos nas nossas costas a histórica extrema desigualdade, econômica, social e educacional que esteriliza alguns comportamentos e aniquila a vontade de ruptura.

Toda Peste causa separações profundas e dolorosas. E olhem nós aqui, já isolados, tratados como pária do mundo… mas, sobretudo, separados de nós mesmos, desviados do Brasil que viemos para ser, do nossa essência, da nossa natureza, do país do futuro e de um mundo mais humano e justo. Do país exuberante, da alegria de viver que faz sonhar, que dança, brinca, canta e encanta. Porém, ao nos rendermos ao mal, passivos, mostramos o que temos de pior. O país da miscigenação não pode ser o da negação do seu próprio destino!

“O flagelo não está à altura do homem; diz-se então que o flagelo é irreal, que é um sonho mau que vai passar. Mas nem sempre ele passa e, de sonho mau em sonho mau, são os homens que passam?”

Como fazer para se livrar deste pesadelo? Sobretudo não fiquemos anestesiados, amordaçados por esta “angústia muda”. Fora com este mal maior, fora a estupidez que desencoraja o uso de máscaras, que dificulta o combate ao vírus, que mata e deixa morrer, e ainda insiste!

Vacinemo-nos uma vez por todas! Vacinemo-nos também para expulsar de nós o mal maior, que vai muito além do agente infeccioso microscópico, que gangrena nosso “corps social”.

Porque não basta identificar o sequenciamento do vírus que nos impõe suas leis e viola nossos direitos, devemos agora encontrar o antídoto. Vacina sim! Ele não! Ele nunca mais! Fora Bolsonaro! Caso contrário, nos tornaremos a nossa própria peste.

“A partir desse momento, pode-se dizer que a peste se tornou um problema comum a todos nós”.

Nota da redação: este artigo de Raí, dirigente do São Paulo e ex-jogador adorado pela torcida do Paris Saint Germain, foi publicado no jornal francês Le Monde em maio de 2021. Vale a reedição.