quinta-feira, 24 de março de 2016
Leitura política do golpismo
O jornal Folha de S. Paulo entende que nesta manifestação na Av. Paulista (São Paulo),
no domingo, dia 13 de março de 2016, havia 500 mil pessoas...
... e que nesta, no mesmo local, na 6ª feira, dia 18 de março de 2016, havia apenas 90 mil pessoas.
É para rir ou chorar, por causa do comportamento deste veículo e do modo como mente para
seus leitores?!
no domingo, dia 13 de março de 2016, havia 500 mil pessoas...
É para rir ou chorar, por causa do comportamento deste veículo e do modo como mente para
seus leitores?!
sexta-feira, 18 de março de 2016
Press Release 039 – 18 de março de 2016
Editorial
Das notícias,
clássicos e imagens à abordagem da crise do golpismo - http://bit.ly/1pzt3Ml
Ensaio
Artigo
Mídia hegemônica e seu séquito de midiotas -
http://bit.ly/1Zb7CwS
Festival francês de Quadrinhos premia o
brasileiro Marcello Quintanilha - http://bit.ly/1MsswAn
Bibliotecas paulistanas sofrem queda de público
e tentam se reinventar - http://bit.ly/1R9vQSW
Bibliotecas de Manaus sofrem com o descaso e
com a burocracia - http://bit.ly/1RrUQEl
Carta de Guimarães Rosa conta os segredos de
Sagarana - http://bit.ly/1R5JTuU
Ela abandonou Wall Street para expor machismo
em livro - http://bit.ly/1pRz9r5
Estudo aponta que pessoas de esquerda são
mais inteligentes do que pessoas de direita - http://bit.ly/1MfSFrm
Clássicos
da Música
Radamés
Gnattali - http://bit.ly/1Fcae4Q
Clássicos
da Literatura
Monteiro Lobato - http://bit.ly/24G5KAh
O Prazer
a Leitura
Crianças e Livros - http://bit.ly/1Wx33vc
Imagem
Pulitzer e a imprensa cínica - http://bit.ly/1RrV7XU
Prof.
Antonio Carlos Ribeiro
Universidade
Federal do Tocantins/PPGL/CAPES
Editor
Se
desejar ler os demais Press Release, clique em http://bit.ly/1E35ugR
Editorial: Das notícias, clássicos e imagens à abordagem da crise do golpismo
Esta edição de 'Leituras' traz Notícias como a trilogia prometida por Mia Couto, a premiação do brasileiro Marcello Quintanilha, as bibliotecas de São Paulo e de Manaus, os segredos de Sagarana contados pelo próprio Guimarães Rosa, a mulher que denunciou o machismo de Wall Street, a inteligência dos jovens de esquerda sobre os de direita, e os dez livros de direito que estudantes devem ler. Nos Clássicos da Música está o compositor Radamés Gnattali e nos Clássicos da Literatura está o escritor Monteiro Lobato. O Prazer da Leitura traz 'Crianças e Livros' e Imagem traz a denúncia da imprensa cínica, pelo jornalista estadunidense Joseph Pullitzer.
Duas matérias recebem destaque por causa dos desastres provocados por nossa elite inculta e efetivados nas ruas pela classe média que aspira à ascensão nesta semana. Um é o Ensaio 'O pesado legado que Joaquim Barbosa deixou para a democracia brasileira', da jornalista Maria Inês Nassif, mostrando como a hermenêutica equivocada da Teoria do Domínio de Fato, do jurista alemão Claus Roxin, cria a insegurança jurídica que agudiza a crise política. E o Artigo 'Mídia hegemônica e seu séquito de midiotas', da jornalista Eliana Rezende, esclarecendo a crise de poder da mídia, especialmente a controlada pela emissora nascida no golpe que, apesar dos avanços na teledramaturgia, nunca se desvencilhou da atração pelo poder, sofrendo seguidos golpes da cidadania - que paga um alto preço para se afirmar - diante do caos instalado.
O pesado legado que Joaquim Barbosa deixou para a democracia brasileira
Maria Inês Nassif
Transcrito de http://jornalggn.com.br/categoria/autor/maria-ines-nassif
Em vez de servir para punir exemplarmente culpados,
o "mensalão", com seu domínio do fato, transformou a
Justiça em parte do terceiro turno eleitoral
Na briga política com “P” maiúsculo, quando se traça estratégias de disputa com grupos oponentes, define-se um limite além do qual não se deve ultrapassar, por razões éticas ou para não abrir precedentes que, no futuro, possam se voltar contra o próprio grupo que não observou esse limite. Em ambos casos, a preservação dos instrumentos de luta democrática é a preocupação central.
O Supremo Tribunal Federal (STF), a partir do caso chamado Mensalão, arvorou-se em fazer política com "p" minúsculo, sem pensar nos precedentes que abria nos momentos em que jogava para a plateia, escolhia inimigos e relativizava a Constituição. Ao fazer jogo político sem que fosse qualificado para isso, pois não é um poder que decorre da livre escolha popular, não mediu as consequências e deixou uma lista de precedentes com potencial de corroer a democracia brasileira.
O primeiro mal exemplo que deu foi o de que um poder não deve obedecer limites. Ao longo do período pós-ditadura, a Corte maior do país se dedicou a uma crescente militância. A nova composição do Supremo, pós-Mensalão, é muito mais jurista do que política, mas é ela que vai ter que pagar pelo erro dos seus antecessores.
No julgamento do Mensalão, em vez de manter-se acima de um clima de comoção artificialmente criado por partidos de oposição e uma mídia avassaladoramente monopolista, o STF fez parte da banda de música. O que se tocava era um mantra segundo a qual qualquer que fossem as provas, quem deveria pagar com a cadeia era a banda governista envolvida no escândalo. Se as provas não corroborassem, que se danassem as provas. Era uma onda de pânico tão típica de momentos aterrorizantes da história mundial – como a ascensão do nazismo e do fascismo, com a repetição de “verdades” construídas sobre afirmações mentirosas, mas fáceis de atrair ódio sobre grupos políticos adversários – que a inclusão da Corte Suprema do país nesse tipo de armação foi de tirar noites de sono de quem já viveu o pesadelo de ditaduras.
O STF abraçou entusiasticamente a tese do domínio do fato para justificar a condenação, por exemplo, de Henrique Pizzolatto (acusado de desviar um dinheiro da Visanet, empresa privada de cartões de débito, que comprovadamente foi destinado para veiculação de anúncios nos próprios veículos de comunicação que o acusavam de corrupção), ou de José Genoíno (que foi condenado porque assinou um empréstimo bancário que comprovadamente entrou na conta bancária do PT e foi quitado pelo partido), ou de José Dirceu (que se supôs ser o mentor do esquema sem que nenhuma prova disso fosse apresentada à Justiça). Com isso, a Corte deu satisfações a uma parcela da população que advogava a prisão a qualquer custo, mas por este prazer de momento legou ao país a dura herança da condenação sem provas e do espetáculo midiático em vez do julgamento justo. O STF alimentou o senso comum de que lugar de adversário político é na cadeia. A democracia brasileira vai levar anos, décadas, uma era, para se livrar desse legado.
O juiz Sérgio Moro forçou a mão nas suas decisões de indiciamento das pessoas mais ligadas ao PT e ao governo, no curso da Operação Lava Jato, e provavelmente condenará a todos eles, com provas ou, se não consegui-las, por suposição. Mas não se pode acusá-lo de ter inventado a roda. A insegurança jurídica provocada pela teoria do domínio do fato – que aproxima a Justiça da democracia brasileira dos famigerados Inquéritos Policiais Militares (IPMs) da ditadura, responsáveis pela “investigação” e “julgamento” de adversários políticos por suposições de corrupção – é obra do ex-ministro Joaquim Barbosa, corroborada pela maioria do plenário do STF, no bojo de uma histeria coletiva artificial provocada por uma pressão direta da oposição e dos meios de comunicação, on line, na medida em que o julgamento se desenrolava nas telas das TVs. Barbosa continuará produzindo condenações altamente questionáveis mesmo depois de ter ido embora para casa tuitar palpites sobre uma democracia que ele não cuidou quando era ministro do Supremo.
Daí que o precedente Joaquim Barbosa gerou Sérgio Moro, que forçou a mão nas peças jurídicas que levaram ao indiciamento de uns, e deixaram passar culpas de seus oponentes.
O precedente Joaquim Barbosa condenou Pizzolatto por contratos do Banco do Brasil com a Visanet que são anteriores à sua posse na diretoria da Marketing da estatal. O tesoureiro do PT, João Vaccari, foi indiciado por financiamentos legais de campanha feitos ao seu partido pelas empresas implicadas no escândalo Petrobras desde 2008 – sem que Moro tenha se importado com o detalhe de que Vaccari assumiu a tesouraria da legenda a partir de fevereiro de 2010. Se a intenção fosse a de fazer justiça, o juiz teria no mínimo feito referência ao tesoureiro anterior. Usou, todavia, o domínio do fato, para argumentar uma responsabilidade telepática de Vaccari sobre fatos que aconteceram mesmo antes de ele assumir o cargo.
O juiz argumenta, ao aceitar a denúncia, que João Vaccari “tinha conhecimento do esquema criminoso [de pagamento de propinas por empresa fornecedoras da Petrobras] e dele participava”, fiando-se em delações premiadas de participantes do esquema que tinham interesse pessoal em responder aos anseios das autoridades policiais e judiciárias que jogavam para uma plateia – e que fizeram isso de forma mais intensa no período eleitoral, com fartos vazamentos seletivos sobre um inquérito que envolveu Deus e o diabo na terra do sol.
Moro tomou como fato inquestionável – e confundiu isso com prova – que o esquema envolveu exclusivamente os últimos governos, e que o financiamento dado oficialmente ao PT era, na verdade, produto de propina. E traçou uma lógica segundo a qual a cada fechamento de contrato pelas empresas envolvidas resultava numa doação legal para o PT, ou para uma campanha do PT.
Quando se toma a doação dessas mesmas empresas para o PSDB e para o PMDB, todavia, fica um grande vazio. Existem duas ordens de doações privadas para partidos e candidatos, segundo Moro: uma, recebida por determinados partidos, que são propina; outra, captada por outros partidos, que não são crimes.
Se tomados os dados de doação registrados junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), as 16 empresas envolvidas no Caso Lava Jato (Galvão Engenharia, Oderbrecht, UTC, Camargo Correa, OAS, Andrade e Gutierrez, Mendes Júnior, Iesa, Queiroz Galvão, Engevix, Setal, GDK, Techint, Promon, MPE e Sranska) contribuíram com R$ 135,5 milhões para as eleições de 2010 e R$ 222,5 para as eleições de 2014.
Nas eleições de 2010, o PMDB, que não tinha candidato presidencial, recebeu a maior parcela, de R$ 32,85 milhões; o PT, R$ 31,4 milhões e o PSDB, R$ 27 milhões. Foram os três maiores agraciados, com 24%, 23% e 20% das doações totais dessas empresas, respectivamente. Todavia, o PSB, o PP, o PRB e o PSC conseguiram também quantias consideráveis: R$ 19,5 milhões, R$ 6,5milhões, R$ 4,95 milhões e R$ 2 milhões, respectivamente. PDT, PC do B, DEM, PTB, PTN, PTC, PTdoB e PMN receberam entre R$ 150 mil e R$ 1,8 milhão.
No ano passado, PT e PSDB mantiveram, de novo, arrecadação muito próxima dessas mesmas empresas. O partido de Dilma conseguiu R$ 56,38 milhões junto a essas fontes, mas o PSDB de Aécio não ficou muito atrás: obteve R$ 53,73 milhões. O PMDB ficou em terceiro em arrecadação, mas rivalizando com os dois partidos que disputaram a Presidência no segundo turno: conseguiu levantar R$ 46,62 milhões dessas empresas. O PSB de Marina Silva ganhou R$ 15,8 milhões; o DEM, R$ 12 milhões; o PP, R$ 10,25 milhões; o PSD, R$ 7,13 milhões; e o PR, R$ 6,85 milhões. Os demais partidos arrecadaram entre R$ 3,3 milhões e R$ 100 mil.
Esses números certamente não querem dizer que todos os partidos que receberam dinheiro dessas empresas tenham, na verdade, recebido propina por serviços prestados a elas. Mas indicam que a simples existência de doações legais ao PT não comprova propina. É preciso que existam provas do ilícito, e que elas sejam mais consistentes do que a delação de implicados que são réus confessos e que foram premiados pela Justiça.
É esse legado que o país carrega do caso Mensalão. Em vez de servir para punir exemplarmente culpados, o Mensalão abriu o precedente de incluir a Justiça com parte de um terceiro turno eleitoral. A Justiça brincou de fazer política e não olhou para os precedentes que abria. A insegurança jurídica que isso causa pode levar no mesmo rodo, no futuro, a água dos que encenaram o espetáculo da condenação sem provas.
Transcrito de http://jornalggn.com.br/categoria/autor/maria-ines-nassif
Mídia hegemônica e seu séquito de midiotas
Eliana Rezende
Transcrito de http://pensadosatinta.blogspot.com.br/p/blog-page.html
O século XXI inicia-se sob a égide da tecnologia e do acesso à Informação.
Moeda social de fácil circulação, a informação abunda em diferentes meios e suportes. Partilhada, compartilhada, inventada, emendada, negociada é exposta como sendo "direito" de todos.
Em sua origem, seria algo muito interessante.
Mas infelizmente o acesso irrestrito e em profusão de informação longe de representar um ativo, é em muitos casos um passivo de difícil gerência.
Um simples zapping nos canais de noticias (incluem-se aí: rádios, TVs e mesmo portais informativos), para alguns, nos fará notar um único diagnóstico: a imprensa vem sofrendo do que poderiamos chamar de crise de inteligência. A forma como tudo é apresentado: simplista e maniqueistamente nos faz pensar sobre, afinal qual seria o papel do jornalista de carreira.
Em sua maioria vemos uma rasa superficialidade, onde a ausência de uma reflexão ou aprofundamento de um fato simplesmente não existem. A obviedade de todas as construções chamam a atenção. Calcada em quase boatos, factoides, o jornalismo tende a nos fornecer construções folhetinescas. Deficiências primárias de contextos, estudo e análises.
Boas perguntas deveriam ser matrizes para boas respostas. Mas se aquele que deveria saber perguntar não o faz por não saber ou não querer, como obterá bons resultados?
A trama construtiva em cada um dos casos ganha o uso de bordões, chavões que massacram ouvidos e compreensões numa nítida tentativa de impor-se como uma única via e como tal, sem possibilidades de questionamentos e confrontos.
A fragilidade discursiva se coloca ao mesmo tempo em que nitidamente vê-se o impositivo de explicações maniqueístas de vida e de mundo, em especial nas temáticas com viés político e econômico. Numa teatralidade igualmente carente de brilho e talento, repórteres, âncoras e jornalistas tentam atrás de teleprompters convencer os que estão do outro lado da seriedade de seu relato ou gravidade de suposições, através de gestuais e franzidos de testa. Como se credibilidade se construísse por teatro e jogo cênico!
Frases quase sempre construídas com verbos como "teria dito, teria falado, teria visto" poluem textos, turvam mentes e são apenas fumaça que serve apenas para nebular os sentidos.
Alçados em mediadores entre "fato e interpretação", tal impressa monotômica reduz perspectivas, banaliza interpretações, reduz possibilidades. Oferece-nos um mundo monocromático e patinado.
Reduzido em matizes, possibilidades e interpretações.
Tal quadro vem se agravando de forma assustadora.
Se pesquisarmos jornais dos séculos XIX e XX veríamos que os principais articulistas, cronistas e jornalistas eram homens de letras. Faziam escola na escrita de textos construídos com rigor e maestria. Muitos eram de fato obras-primas. O bom português era cultivado e aprendido. Os artigos eram construídos com rigor e responsabilidade. E mesmo sendo uma mídia partidarizada, os textos tinham sua virtude e encanto.
Mesmo quando a pauta era investigativa, os responsáveis iam fundo nisso. Checavam suas fontes e não deixavam nada a ser de fato investigado. Não calcavam-se em boataria de portas de presídios e corredores de fábricas e hospitais. Simplesmente investigavam. Hoje o que temos é vergonhoso.
A imprensa move-se e comporta-se de forma infantilizada e, em muitos casos irresponsavelmente coloca pessoas, reputações, vidas em lugares de injúria, difamação, equívocos e muitas mentiras.
Conduzem todos ao lugar maniqueísta de amor e ódio a ideias, pessoas, projetos. E é nítido que um discurso de ódio acaba sendo o que possui maior apelo: afinal atende de perto à satisfação imediata do maniqueísmo primordial humano.
O ódio é mais fácil ensinar que o amor porque ele (o ódio) dá um propósito imediato, sem qualquer esforço, enquanto o amor é nada além da bravura constante em face da incerteza total.
Tal estado de coisas, leva jornalistas, que de fato fazem jornalismo, a simplesmente parar tudo e refletir.
Nas palavras lúcidas de Luciano Martins Costa, ao se despedir do Observatório da Imprensa, depois de 15 anos de trabalho diário:
(...) Este observador vai interromper por tempo indeterminado suas análises diárias da imprensa brasileira através deste canal.
Os motivos que levam à interrupção desta jornada são muitos, entre os quais não é possível fazer uma hierarquia de relevâncias. Talvez fosse possível contornar alguns deles, mas há uma causa que não pode ignorada: não há muito mais o que se analisar na mídia informativa brasileira.
Os principais veículos da imprensa se transformaram em panfletos políticos e vasculhar o noticiário em busca de jornalismo que valha uma referência tem sido como buscar um fio de cabelo no palheiro.
...
A única pauta que interessa à mídia tradicional do Brasil é a agenda da desconstrução da aliança que controla o Poder Executivo desde 2003.
Mas essa é uma questão que os leitores atentos reconhecem em cada linha do noticiário, em cada expressão dramática nas faces dos apresentadores dos telejornais de maior audiência. Os demais – aqueles que tomam por verdadeiro tudo que sai na imprensa – seguirão repetindo a linguagem chula dos pitbulls que trucidam a língua culta e subvertem a narrativa jornalística.
...
Mas sabemos todos que, uma vez colocada a lente da crítica sobre a imprensa, você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito".
De outro lado, tais agentes panfletários encontram ouvidos e mentes, não de leitores (que supostamente deveriam saber ser críticos e não simplesmente tomar cada vírgula como verdade absoluta), mas do que o próprio Luciano Costa, chama de "midiotas".
Os midiotas são aqueles que tomam os relatos de forma bidimensional. Não são capazes de entender contextos e conexões de sentido. Faltam-lhe estofo e dimensões históricas, sociais, políticas. Não entendem o mundo como produto de relações que se tecem no tempo/espaço. Assim, mundo ganha ares apocalípticos. É o maniqueismo fundamentalista ganhando ruas e tendo nos midiotas um coro de rancores, preconceitos, xingamentos, e tudo o que de mais vil os meios de comunicação podem produzir. Tomam o que leem de forma literal e, pior do que tudo, reproduzem como chavões o pobre linguajar chulo de pitbulls. Em sua visão torpe acreditam estar fazendo crítica social!
Em verdade, são incapazes de articular um raciocínio crítico ao que lhes é exposto em quantidade por uma mídia hegemônica que pratica todo o tempo a desinformação como tática.
Estes midiotas desconhecendo as sutis distinções e matizes de pensamento do político, social, cultural conseguem posicionar-se mais frequentemente em meros termos moralistas e legalistas, de bem e mal absolutos. Afinal, é a forma mais rudimentar e primitiva de pensamento, a mais simples de todas.
Não sabem que entre um polo e outro há uma imensidão de nuances e perspectivas.
Não sabem que História não se escreve em dias ou horas para satisfazer desejos imediatos. Escreve-se no tempo, pelo tempo e sua face não se dá a conhecer apenas por meio de uma manchete sensacionalista.
E mais uma vez cito Luciano Martins Costa:
"A opinião pública(da), quando concentrada nas mãos de um cartel, possui grande poder de agendar e interditar debates ao gosto do dono da editoria. Esta distorção gera efeitos deletérios no processo democrático e de tomada de decisões (...) O viés conservador, predominante na mídia, martelado diariamente sobre as pessoas, induz a posicionamentos reacionários, defensivos e individualistas" (...) A sociedade é influenciada na medida em que um grande número de indivíduos perde a noção daquilo que é do interesse coletivo e das responsabilidades individuais na construção de uma sociedade (...) Como o interesse social é difuso, o discurso manipulador da mídia transforma facilmente o sentido dos fatos".
Sem saber "ler" as intenções deste ecossistema da comunicação, as vítimas tornam-se midiotas carimbados.
E assim seguimos observando escritos e leitores de um tempo onde a crise de inteligência midiática impera e uma fauna rica em equívocos prolifera. Tempos onde a massa de manobra é grande e não sabe para onde vai. Seguem amontoados movimentos de manada repetindo mantras, sem noções de passado, presente ou de qualquer perspectiva de futuro. Não entendem como o mundo e todo seu entorno é feito de contextos, muito mais complexos do que os apresentados no noticiário.
Que falta boas letras e leitores fazem!
Transcrito de http://pensadosatinta.blogspot.com.br/p/blog-page.html
Mia Couto promete trilogia sobre império africano
Depois de dois anos sem lançar nenhum livro, Mia Couto se aprofundou em pesquisa para publicar o romance histórico "As Areias do Imperador", uma trilogia sobre Ngungunhane, o último imperador do Estado de Gaza, no sul de Moçambique.
"Mulheres de Cinza" - é o primeiro livro da coleção revela os decisivos dias do chamado Estado de Gaza, o segundo maior império em África dirigido por um africano. Ngungunyane (ou Gungunhane como ficou conhecido pelos portugueses) foi o último dos imperadores que governou toda a metade Sul do território de Moçambique. Derrotado em 1895 pelas forças portuguesas comandadas por Mouzinho de Albuquerque, o imperador Ngungunyane foi deportado para os Açores onde veio a morrer em 1906. Os seus restos mortais terão sido trasladados para Moçambique em 1985. Existem, no entanto, versões que sugerem que não foram as ossadas do imperador que voltaram dentro da urna. Foram torrões de areia. Do grande adversário de Portugal restam areias recolhidas em solo português.
Inicialmente, Couto desejou escrever uma única obra, mas logo precebeu que resultaria num livro de muitas páginas, e foi necessário ramificá-lo em três partes. O primeiro volume será lançado essa semana em Portugal. Os dois próximos volumes estão previstos para 2016 e 2017.
A Companhia das Letras, editora que publica os livros do Mia Couto no Brasil, confirmou o lançamento para novembro.
Transcrito de http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2015/10/30/interna_diversao_arte,504529/mia-couto-promete-trilogia-sobre-imperio-africano.shtml
Festival francês de quadrinhos premia o brasileiro Marcello Quintanilha
O quadrinista brasileiro Marcello Quintanilha foi premiado neste final de semana no 43º Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême. O evento, realizado anualmente no oeste francês, é o mais importante do mercado europeu de quadrinhos.
Transcrito de http://www3.folhape.com.br/cms/opencms/folhape/pt/cultura/noticias/arqs/2016/01/0593.html
Quintanilha foi premiado por seu gibi "Tungstênio" na categoria policial "Polar SNCF". O grande troféu do festival foi entregue ao livro "Here", do americano Richard McGuire. O prêmio pelo conjunto da obra havia sido anunciado durante a semana passada e entregue ao artista belga Hermann.
"Tungstênio", publicado no Brasil pela editora Veneta, é a segunda obra de Quintanilha traduzida ao francês. O mercado franco-belga, onde foram criados ícones dos quadrinhos como Tintim e Asterix, é um dos mais importantes do mundo. A história da HQ brasileira premiada no festival se passa em Salvador, em uma trama policial. Quintanilha é conhecido também por "Sábado dos Meus Amores".
Polêmicas
O festival de Angoulême, que costuma receber menos atenção do que a premiação Eisner, celebrada nos EUA, esteve no radar nos últimos dois anos. Em 2015, porque o evento foi realizado no mesmo mês do atentado terrorista à redação do semanário satírico "Charlie Hebdo". Houve, naquele ano, homenagens aos cartunistas mortos. Também foram realizadas manifestações devido à precariedade dos contratos de artistas do mercado dos gibis, na Europa e nos EUA.
Em 2016, Angoulême foi relembrado pela imprensa devido à polêmica da baixa representação de mulheres no evento. Autores de peso como Daniel Clowes e Riad Sattouf boicotaram o festival.
O quadrinista Sattouf havia sido premiado na edição anterior do evento, com seu gibi "Árabe do Futuro", em que narra sua infância entre a França, a Líbia e a Síria.
Transcrito de http://www3.folhape.com.br/cms/opencms/folhape/pt/cultura/noticias/arqs/2016/01/0593.html
Bibliotecas paulistanas sofrem queda de público e tentam se reinventar
Mais paulistanos vão hoje às bibliotecas da cidade que em 1990 e o número de empréstimos de livros dobrou de lá para cá (de 507 mil para cerca de 1 milhão em 2015).
A elevação é consequência do aumento no número de unidades, com a ajuda da multiplicação dos CEUs (Centro Educacional Unificado), na década passada, e da digitalização de registros, que traz informações mais precisas sobre os empréstimos.
Nesse período, os espaços também ganharam acervos de quadrinhos, filmes e outros conteúdos, como jogos de tabuleiro e videogames de última geração.
Mas essas iniciativas ainda não foram suficientes para compensar o declínio da biblioteca como espaço de pesquisa escolar. Diante do desafio da era digital, esses espaços vêm perdendo visitantes desde que atingiram o pico de frequentadores, de 2,6 milhões no ano de 2004.
Para mudar essa realidade, as bibliotecas da cidade investem em novas estratégias para estancar as perdas e transformar sua missão. "Essa mudança é boa, pois agora a biblioteca pública pode se dedicar a outros públicos e ser um espaço de descoberta da leitura", diz Waltemir Nalles, coordenador do Sistema Municipal de Bibliotecas.
O principal plano para atrair mais visitantes é apostar em eventos, como oficinas, pequenos shows, peças de teatro e encontros com autores. "As bibliotecas precisam ser pensadas como espaços multifuncionais e não como estantes de livros", afirma Francisco Aguiar, professor de biblioteconomia da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.
Para Pierre Ruprecht, diretor da SP Leituras, esses espaços devem ser um lugar de lazer e convivência, como uma praça, um bar ou a praia. "Um local onde o cidadão se encontra para trocar cultura, mas sem prazer, ninguém aprende nada", diz.
A entidade administra as duas bibliotecas estaduais na capital: a São Paulo, na área do antigo Carandiru, e a Villa-Lobos, no parque homônimo.
Abertas em 2010 e 2014, elas estão entre as bibliotecas que atraem mais público na cidade. Em seu primeiro ano, a Villa-Lobos recebeu 194 mil pessoas, 12 vezes mais que a média de público dos espaços municipais, de 16 mil pessoas.
De segunda a sexta, predominam moradores da região e, aos fins de semana, chegam visitantes de vários bairros da zona oeste e de cidades vizinhas, como Osasco e Barueri. Em janeiro, ela abriu as portas para um encontro de "booktubers", pessoas que falam sobre livros em vídeos do YouTube, e seus seguidores.
Ambas apostam em design colorido, estantes mais baixas e foco em literatura e ciências humanas.
Há também mais tecnologia, como renovação do empréstimo pela internet, e funcionários jovens - universitários e recém-formados.
As bibliotecas também atraem imigrantes para as ações. Um dos projetos, realizado ano passado, ofereceu aulas de português a bolivianos que, em troca, ensinaram espanhol aos frequentadores. Já uma entidade que recebe haitianos em São Paulo teve à disposição kits de livros sobre o Brasil.
Do outro lado, na rede municipal, em que o ambiente sóbrio e silencioso ainda é o dominante, os espaços se tornam, aos poucos, mais abertos e convidativos. A Mário de Andrade, no centro, que recebe 500 mil visitantes por ano, planeja oferecer atendimento 24 horas. Por enquanto, fecha a seção de empréstimos às 20h30 e deixa uma área de estudos aberta durante a noite. A rede tem ao todo 56 bibliotecas.
Na última década, a prefeitura passou a permitir pesquisas em todo o seu acervo via internet, e apostou no modelo de unidades temáticas. A de maior sucesso é a Hans-Christian Andersen, de contos de fadas, no Tatuapé, que recebeu 33 mil visitantes em 2015.
A Roberto Santos, voltada ao cinema, conta com um cineclube no Ipiranga e guarda filmes raros. Já a Mário Schenberg, que se concentra em temas científicos, não foi tão bem-sucedida e passa por reformulação. "Esperávamos aproveitar a proximidade com a estação Ciência, mas ela fechou", diz o coordenador Waltemir Nalles.
Outras estratégias são dar apoio às bibliotecas comunitárias, criadas por moradores de bairros das periferias, e levar os livros para as ruas, por meio de 72 roteiros de ônibus-bibliotecas. No ano passado, eles realizaram 312 mil empréstimos.
Ratos de biblioteca
Apesar dos pesares, as bibliotecas ainda contam com frequentadores fiéis. A pesquisadora Estefânia de Francis, 41, por exemplo, pegou por empréstimo 282 livros em 2015. "Estou fazendo mestrado sobre literatura africana e também pego livros para meu marido e meu filho Heitor, de 8 anos", conta. "As bibliotecas têm um acervo muito bom, mas são pouco frequentadas".
Outra campeã dos empréstimos é a deficiente visual Áurea Gaspar, 84, com 352 retiradas, boa parte delas de livros em braile. "Ela resolveu ler agora o que não leu durante a vida", comenta Cleide, prima de Áurea, que busca os livros para ela. "Como já leu todos os que [a biblioteca] tinha em braile, agora pegamos livros infantis, que têm a letra grande."
Mirela Ramaciotti, 45, administradora, almoça quase todos os dias no espaço de leitura da biblioteca Álvaro Guerra, em Pinheiros. Ela começou a frequentá-la quando precisou ajudar o filho Danilo em um trabalho da pré-escola. Hoje, ele tem 18 anos. "As bibliotecárias conhecem nossas preferências e sempre indicam livros", conta. "Sou fã porque aqui não há nada vinculado à compra".
Tanto a rede municipal quanto a estadual querem agora emprestar livros eletrônicos. Mas ainda falta chegar a um acordo com as editoras. "Poderemos emprestar até Kindle [leitor eletrônico da Amazon]", planeja Ruprecht, da SP Leituras.
Transcrito de Rafael Balago - Folha de S. Paulo
Bibliotecas de Manaus sofrem com o descaso e com a burocracia
Silane Souza
Do acritica.com - Biblioo.info
Mesmo com inovações tecnológicas como a internet, muitos estudantes ainda preferem buscar informações na boa e velha biblioteca. Mas, para quem estuda no Centro de Manaus, essa tem sido uma tarefa difícil. Isso porque, enquanto a Biblioteca Pública municipal João Bosco Pantoja Evangelista funciona em local improvisado porque a sede, localizada na Praça do Congresso, está abandonada, a Biblioteca Pública Estadual, reformada em 2013, impõe uma série de medidas burocráticas que acabam afastando os estudantes.
Na Biblioteca Estadual, horário restrito de funcionamento e a exigência de comprovante de residência atualizado para uma simples consulta ao acervo dificultam a vida dos usuários. A reclamação é a mesma em todas as instituições de ensino que a reportagem visitou no centro histórico. Quem estuda naquela área reclama da dificuldade em fazer pesquisas além da internet e das bibliotecas das escolas e faculdades, que muitas vezes sequer contam com esse espaço.
“Hoje quase ninguém frequenta biblioteca, faz tudo pela internet e celular, digita o que quer e pronto: acha. E, quando alguém vai tentar fazer uma consulta na biblioteca pública, sempre se depara com alguma dificuldade. Aí fica difícil incentivar os alunos”, disse o estudante de enfermagem João Lucas dos Santos Lima, 25, que reclamou do atendimento ao público na Biblioteca Pública do Amazonas, localizada na rua Barroso, Centro.
Na opinião dele, as maiores dificuldades são a burocracia para acessar o acervo e o horário de funcionamento, que está restrito das 8h às 14h. Quem também reclama do funcionamento da biblioteca é a estudante do ensino médio Alice Amanda Santos Nobre, 15. Para ela, o local deveria ficar aberto, pelo menos, até as 18h. “Essa é a hora que os estudantes da manhã têm para fazer suas pesquisas, uma vez que o local fecha às 14h. Eu mesma preciso sempre emprestar livros que são difíceis de serem encontrados, só na biblioteca mesmo. Mas se ela está fechada…”.
Abandono
Se na Biblioteca Pública Estadual o problema é a burocracia, na municipal o que preocupa os frequentadores é o abandono. O prédio foi fechado em 2011 para uma reforma que, até hoje, não foi iniciada. Cercado por tapumes, o local acabou invadido por moradores de rua que o usam como abrigo. Enquanto isso, o acervo é mantido de forma provisória em uma casa no Largo São Sebastião, também no Centro.
Para a estudante de educação física Jessica Sá da Silva, 22, o abandono do prédio é um descaso não só com os estudantes, mas com a sociedade em geral. “Faz tanto tempo que a biblioteca foi fechada para reforma, mas as obras nunca saem. Muitas faculdades têm a sua própria biblioteca, o que facilita a vida dos alunos, mas nem todos os estudantes podem utilizar esses espaços, só aqueles que estudam lá. E os outros, que não têm essa possibilidade? E o resto da população?”.
Obras
A Fundação Municipal de Cultura, Turismo e Eventos (Manauscult) informou que a Biblioteca Municipal João Bosco Pantoja Evangelista está inclusa entre as obras contempladas pelo programa PAC Cidades Históricas, cujo andamento é acompanhado atualmente pela Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seminf).
Informou ainda que, atualmente o projeto esta em fase de análise e atualização do orçamento junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O custo estimado da obra de restauração das fachadas, reforma dos espaços internos, instalações e cobertura e de aproximadamente R$ 3,9 milhões.
Enquanto isso, conforme a Manauscult, a biblioteca está em funcionamento normal, desde o fechamento do prédio para a obra, na rua Costa Azevedo, Largo de São Sebastião, Centro.
Horário reduzido e acervo virtual
Sobre a Biblioteca Pública Estadual, a Secretaria de Estado de Cultura (SEC) informou que o horário de funcionamento foi reduzido desde janeiro por conta das férias escolares e de um treinamento, realizado com os servidores, mas deverá voltar ao normal (8h às 18h de segunda a sexta) no dia 1° de março.
Em relação à exigência de comprovante de residência para consulta ao acervo, a pasta informou que, apesar de a funcionária que atendeu a reportagem de A Critica ter exigido o documento, o procedimento correto é exigí-lo apenas em casos de empréstimo das obras, medida permitida apenas para o acervo de literatura.
Conforme a SEC, a Biblioteca Pública do Amazonas possui um acervo de, aproximadamente, 350 mil volumes, entre livros, folhetos, jornais, periódicos, multimídia, teses, obras raras, obras especiais, projetos, plantas e mapas.
O acervo de literatura está disponível para empréstimo e os demais, para consulta local, para manutenção/preservação do acervo. E ainda possui um acervo com mais de 800 títulos digitalizados para consulta via biblioteca virtual, disponível no endereço eletrônico bv.am.gov.br
A pasta frisou que a Biblioteca Pública do Amazonas foi selecionada pelo Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP), via edital nacional do Ministério da Cultura, para ser beneficiada entre dez do Brasil a receber uma série de ações, cujo objetivo é de promover acessibilidade para pessoas com deficiência.Um dos méritos reconhecidos na seleção é o total compromisso do Governo do Estado na condução da política de inclusão no Amazonas.
Ao todo, 20 funcionários da biblioteca foram capacitados com o treinamento em Tecnologia Assistiva, durante a semana passada. No ano de 2015, foram realizados diversos treinamentos na área de inclusão social para funcionários dos demais espaços da Secretaria de Estado de Cultura, como os cursos “Libras”, “Princípios de Políticas Públicas e Programas de Livro e Leitura Acessíveis e Inclusivas” e de “Políticas Públicas de Livro e Leitura para Todos: Gestão, Implementação e Boas Práticas”, entre outros.
E nos dias 1º e 2 de março, a Biblioteca Pública do Amazonas participará do Seminário Internacional de Acessibilidade em Bibliotecas Públicas, na Universidade de São Paulo (USP).
Do acritica.com - Biblioo.info
Carta de Guimarães Rosa conta os segredos de Sagarana
A obra Sagarana, de João Guimarães Rosa completa em 2016, 70 anos, sendo um de seus grandes clássicos.
O Portal Vermelho, traz em seu caderno Prosa, Poesia e Arte matérias, fragmentos e documentos em homenagem ao escritor.
Confira então, uma carta envida por Guimarães Rosa ao amigo e também autor João Condé, onde faz relatos inéditos sobre Sagarana.
Prezado João Condé,
Exigiu você que eu escrevesse, manu propria, nos espaços brancos deste seu exemplar de Sagarana, uma explicação, uma confissão, uma conversa, a mais extensa, possível — o imposto João Condé para escritores, enfim. Ora, nem o assunto é simples, nem sei eu bem o que contar. Mirrado pé de couve, seja, o livro fica sendo, no chão do seu autor, uma árvore velha, capaz de transviá-lo e de o fazer andar errado, se tenta alcançar-lhe os fios extremos, no labirinto das raízes. Graças a Deus, tudo é mistério.
Algo, porém, tem de ser dito. Ao autor o que é do autor, mas a João Condé o que é de João Condé.
Assim, pois, em 1937 — um dia, outro dia, outro dia... — quando chegou a hora de o Sagarana ter de ser escrito, pensei muito. Num barquinho, que viria descendo o rio e passaria ao alcance das minhas mãos, eu ia poder colocar o que quisesse. Principalmente, nele poderia embarcar, inteira, no momento, a minha concepção-do-mundo.
Tinha de pensar, igualmente, na palavra “arte”, em tudo o que ela para mim representava, como corpo e como alma; como um daqueles variados caminhos que levam do temporal ao eterno, principalmente.
Já pressentira que o livro, não podendo ser de poemas, teria de ser de novelas. E — sendo meu — uma série de Histórias adultas da Carochinha, portanto.
Rezei, de verdade, para que pudesse esquecer-me, por completo, de que algum dia já tivessem existido septos, limitações, tabiques, preconceitos, a respeito de normas, modas, tendências, escolas literárias, doutrinas, conceitos, atualidades e tradições — no tempo e no espaço. Isso, porque: na panela do pobre, tudo é tempero. E, conforme aquele sábio salmão grego de André Maurois: um rio sem margens é o ideal do peixe.
Aí, experimentei o meu estilo, como é que estaria. Me agradou. De certo que eu amava a língua. Apenas, não a amo como a mãe severa, mas como a bela amante e companheira. O que eu gostaria de poder fazer (não o que fiz, João Condé!) seria aplicar, no caso, a minha interpretação de uns versos de Paul Éluard: ...“o peixe avança nágua, como um dedo numa luva”... Um ideal: precisão, micromilimétrica.
E riqueza, oh! riqueza... Pelo menos, impiedoso, horror ao lugar-comum; que as chapas são pedaços de carne corrompida, são pecados contra o Espírito Santo, são taperas no território do idioma.
Mas, ainda haveria mais, se possível (sonhar é fácil, João Condé, realizar é que são elas...): além dos estados líquidos e sólidos, por que não tentar trabalhar a língua também em estado gasoso?!
Àquela altura, porém, eu tinha de escolher o terreno onde localizar as minhas histórias. Podia ser Barbacena, Belo Horizonte, o Rio, a China, o arquipélago de Neo-Baratária, o espaço astral, ou, mesmo, o pedaço de Minas Gerais que era mais meu. E foi o que preferi. Porque tinha muitas saudades de lá. Porque conhecia um pouco melhor a terra, a gente, bichos, árvores.
Porque o povo do interior — sem convenções, “poses” — dá melhores personagens de parábolas: lá se veem bem as reações humanas e a ação do destino: lá se vê bem um rio cair na cachoeira ou contornar a montanha, e as grandes árvores estalarem sob o raio, e cada talo do capim humano rebrotar com a chuva ou se estorricar com a seca.
Bem, resumindo: ficou resolvido que o livro se passaria no interior de Minas Gerais. E compor-se-ia de 12 novelas. Aqui, caro Condé, findava a fase de premeditação. Restava agir.
Então, passei horas de dias, fechado no quarto, cantando cantigas sertanejas, dialogando com vaqueiros de velha lembrança, “revendo” paisagens da minha terra, e aboiando para um gado imenso. Quando a máquina esteve pronta, parti. Lembro-me de que foi num domingo, de manhã.
O livro foi escrito — quase todo na cama, a lápis, em cadernos de 100 folhas — em sete meses; sete meses de exaltação, de deslumbramento.
(Depois, repousou durante sete anos; e, em 1945, foi “retrabalhado”, em cinco meses, cinco meses de reflexão e de lucidez).
Lá por novembro, contratei com uma datilógrafa a passagem a limpo. E, a 31 de dezembro de 1937, entreguei o original, às 5 e meia da tarde, na Livraria José Olympio. O título escolhido era “Sezão”; mas, para melhor resguardar o anonimato, pespeguei no cartapácio, à última hora, este rótulo simples: “Contos” (título provisório, a ser substituído) por Viator. Porque eu ia ter de começar longas viagens, logo após.
Como já disse, as histórias eram doze:
I) — O burrinho pedrês — Peça não profana, mas sugerida por um acontecimento real, passado em minha terra, há muitos anos: o afogamento de um grupo de vaqueiros, num córrego cheio.
II) — A volta do marido pródigo — A menos “pensada” das novelas do Sagarana, a única que foi pensada velozmente, na ponta do lápis. Também, quase não foi manipulada, em 1945.
III) — Duelo — Aqui, tudo aconteceu ao contrário do que ficou dito para a anterior: a história foi meditada e “vivida”, durante um mês, para ser escrita em uma semana, aproximadamente. Contudo, também quase não sofreu retoques em 1945.
IV) — Sarapalha — Desta, da história desta história, pouco me lembro. No livro, será ela, talvez, a de que menos gosto.
V) — Questões de família — História fraca, sincera demais, meio autobiográfica, malrealizada. Foi expelida do livro e definitivamente destruída.
VI) — (Uma história de amor — Um belo tema, que não consegui desenvolver razoavelmente. Teve o mesmo destino da novela anterior).
VII) — Minha gente — Por causa de uma gripe, talvez, foi escrita molemente, com uma pachorra e um descansado de espírito, que o autor não poderia ter, ao escrever as demais.
VIII) — Conversa de bois — Aqui, houve fenômeno interessante, o único caso, neste livro, de mediunismo puro. Eu planejara escrever um conto de carro-de-bois com o carro, os bois, o guia e o carreiro. Penosamente, urdi o enredo, e, um sábado, fui dormir, contente, disposto a pôr em caderno, no domingo, a história (n. 1). Mas, no domingo caiu-me do ou no crânio, prontinha, espécie de Minerva, outra história (n. 2) — também com carro, bois, carreiro e guia — totalmente diferente da da véspera. Não hesitei: escrevi-a, logo, e me esqueci da outra, da anterior. Em 1945, sofreu grandes retoques, mas nada recebeu da versão pré-histórica, que fora definitivamente sacrificada.
IX) — Bicho mau — Deixou de figurar no Sagarana, porque não tem parentesco profundo com as nove histórias deste, com as quais se amadrinhara, apenas, por pertencer à mesma época e à mesma zona. Seu sentido é outro. Ficou guardada para outro livro de novelas, já concebido, e que, daqui a alguns anos, talvez seja escrito.
X) — Corpo fechado — Talvez seja a minha predileta. Manuel Fulô foi o personagem que mais conviveu “Humanamente” comigo, e cheguei a desconfiar de que ele pudesse ter uma qualquer espécie de existência. Assim, viveu ele para mim mais umas 3 ou 4 histórias, que não aproveitei no papel, porque não tinham valor de parábolas, não “transcendiam”.
XI) — São Marcos — Demorada para escrever, pois exigia grandes esforços de memória, para a reconstituição de paisagens já muito afundadas. Foi a peça mais trabalhada do livro.
XII) — A hora e vez de Augusto Matraga — História mais séria, de certo modo síntese e chave de todas as outras, não falarei sobre o seu conteúdo. Quanto à forma, representa para mim vitória íntima, pois, desde o começo do livro, o seu estilo era o que eu procurava descobrir.
Por ora, Condé, aqui está o que eu pude relembrar, acerca do Sagarana. Se você quiser, eu poderei contar, mais tarde —, num exemplar da 2ª edição — algumas passagens históricas, ocorridas entre o dia 31 de dezembro de 1937 e a data em que o livro foi entregue à Editora Universal. Serve?
Com o cordial abraço do
Guimarães Rosa
Fonte: Portal Vermelho
Ela abandonou Wall Street para expor machismo em livro
Amanda Gordon
Maureen Sherry passou a primeira metade de sua vida adulta subindo na hierarquia de alguns dos maiores bancos de investimentos de Wall Street e a segunda metade entre outras mães ricas, muitas delas casadas com líderes do setor financeiro.
Neste mês ela publicou "Opening Belle" (sem tradução em português), um romance que narra de forma cômica e mordaz o comportamento inadequado dos homens desses dois mundos, desde um garoto que puxa uma calcinha fio dental na pré-escola até a misoginia entranhada dos homens na bolsa de valores –e também a dinâmica das mulheres que os rodeiam.
Como o título sugere, elas são os personagens que ocupam o centro das atenções. Um filme já está sendo desenvolvido pela Warner Bros e pela empresa produtora da atriz Reese Witherspoon.
"Opening Belle" acompanha Isabelle, inicialmente a integrante mais relutante do secreto "Clube da Barreira Invisível", formado por colegas mulheres. Quando começam a circular memorandos anônimos chamando a atenção dos homens por seu comportamento machista, Isabelle fica com raiva.
Seu fervor feminista só começa quando o chefe dela insiste para que ela divida seus ganhos em 60/40 (60% para ela e 40% para ele) com um colega preguiçoso de nível júnior. A sobrecapa do livro resume esse lado da história da seguinte forma: "Ficar rica em Wall Street seria muito mais divertido se os homens mantivessem suas mãos longe dos negócios dela".
Mas, embora ressalte a cultura de trabalho dominada por homens do lugar de onde vem a autora, o retrato que Sherry faz das relações das mulheres mostra que os homens não são os únicos que precisam mudar.
Isabelle observa as outras mulheres com um misto de respeito, divertimento e desprezo: "Elas usam joias normalmente compradas umas das outras" e tentam conseguir encontros para brincar com os filhos dos bilionários. Ainda assim, até mesmo a mulher que roubou o noivo dela ganha sua admiração por mandar na vida do homem com tanta facilidade.
'Comentários maldosos'
"Eu tive a vantagem de ter estado dos dois lados, com as mulheres que não trabalhavam fora da casa e com as mulheres que trabalhavam", disse Sherry, 51, em uma entrevista. "Eu era muito sensível em relação a quando um grupo era indelicado com o outro."
O efeito da cultura de Wall Street sobre a próxima geração chega ao ápice em uma assembleia pré-escolar. Isabelle está sentada com outros desajustados quando o filho dela se inclina para a frente e puxa com força a calcinha à mostra por cima da calça jeans da mulher que roubou o noivo dela.
No romance, Isabelle é diretora-gerente de um banco de investimento. Na vida real, Sherry tinha o mesmo cargo na Bear Stearns Cos., onde trabalhou em ações institucionais. (O marido dela, Steve Klinsky, fundou e administra a empresa de private equity New Mountain Capital).
Embora não tenha havido nenhum incidente com calcinhas na vida real, Sherry diz que houve uma oportunidade em que ela se sentou com um de seus filhos e ele notou que a calcinha fio dental de outra mãe estava aparecendo. "Ele ficou fascinado". Quanto à cena na pré-escola, diz ela, a narrativa é "bastante precisa".
Sherry também testemunhou atritos entre mulheres dentro e fora de Wall Street. Ela se lembra dos "comentários maldosos" das mulheres que trabalhavam fora sobre como o presente de final de ano de uma professora foi tratado pelas mães sem emprego. "Aquele tipo de coisa realmente me machucava", diz ela. "Eu sempre me lembro do fato de que um grupo precisa do outro."
Amante do mercado
"Opening Belle" está sendo publicado pela Simon Schuster, da CBS. Algumas das reações mais gratificantes que Sherry recebeu até o momento vieram de mulheres e homens que trabalharam em Wall Street, sobre o modo em que Belle descreve seu amor pelos mercados.
Todos, em qualquer escala de salário, querem se sentir produtivos, diz ela. É um avanço que existam mais pais que permaneçam em casa e mulheres da idade dela que voltam ao trabalho, além de mulheres mais jovens que encontram mais trabalho com seus próprios esforços.
"A ambição é algo difícil de desligar", diz ela.
Bloomberg - 16/02/2016
Estudo aponta que pessoas de esquerda são mais inteligentes que as de direita
Um estudo realizado por acadêmicos da Universidade Brock, em Ontário, no Canadá, afirma que pessoas com opiniões políticas de esquerda tendem a ser mais inteligentes do que aquelas com visões de mundo de direita. A pesquisa, que inclui dados coletados por mais de 50 anos, também aponta que crianças com menores índices de inteligência tendem a desenvolver pensamentos racistas e homofóbicos na idade adulta.
O trabalho de pesquisa ouviu mais de 15 mil pessoas, comparando o nível de inteligência na infância com seus pensamentos políticos como adultos. Os dados analisados são do Reino Unido, entre os anos de 1958 e 1970. Para realizar o estudo, os pesquisadores mediram a inteligência de crianças com idade entre dez e 11 anos e voltaram a analisar suas posições políticas aos 33 anos de idade.
“As habilidades cognitivas são fundamentais na formação de impressões de outras pessoas e a ter a mente aberta. Indivíduos com menores capacidades cognitivas gravitam em torno de ideologias conservadoras que mantêm as coisas como elas são, porque isso lhe dá um um senso de ordem”, dizem no estudo publicado no Journal of Psychological Science.
Preconceito burro
A equipe concluiu, então, que menores níveis de inteligência estão relacionados a pensamentos de direita, porque esses os fazem se sentir mais seguros no poder – o que pode se relacionar com o seu nível educacional, inclui o jornal britânico. Além disso, ao analisar dados de um estudo de 1986, nos Estados Unidos, sobre o preconceito contra homossexuais, os pesquisadores descobriram que pessoas com baixa inteligência detectada na infância tendem a desenvolver pensamentos ligados ao racismo e à homofobia.
“As ideologias conservadoras representam um elo crítico por meio do qual a inteligência na infância pode prever o racismo na fase adulta. Em termos psicológicos, a relação entre inteligência e preconceitos podem ser derivadas de qual a probabilidade de indivíduos com baixas habilidades cognitivas apoiarem ideologias de direita, conservadoras, porque eles oferecem uma sensação de estabilidade e ordem “, acrescentou. “No entanto, é claro que nem todas as pessoas pessoas prejudicadas são conservadoras”, disse a equipe de pesquisa.
http://jornalggn.com.br/noticia/estudo-aponta-que-pessoas-de-esquerda-sao-mais-inteligentes-que-as-de-direita
Os 10 livros que todo estudante de direito deve ler
A Contracapa selecionou 10 livros de literatura que todo estudante de direito deveria ler. Confira a lista.
Jonatan Silva - Contracapa
Crimes – Ferdinand von Schirach
Advogado criminalista e leitor voraz, von Schirach recria no seu primeiro livro muito dos casos que vivenciou em tribunais alemãs. O grande feito de Crimes está no poder de argumentação e persuasão apresentado pelo autor. Lançado em 2009, vendeu mais de 400 mil exemplares na Alemanha.
Culpa – Ferdinand von Schirach
Segundo e mais recente livro de von Schirach lançado no Brasil, Culpa retorna à estética de Crimes e permite ao leitor entrar em um universo incrível. Assim como na obra anterior, o autor usa da própria experiência delimitar o que é culpa perante o tribunal.
O Processo – Franz Kafka
Romance inacabado do escritor tcheco, O Processo é uma alegoria à culpa e à burocracia. Joseph K. se vê às voltas com uma acusação que não sabe qual é e repentinamente abandona o cotidiano suburbano que tinha.
Na Colônia penal – Franz Kafka
Novela magistral de Kafka, Na Colônia penal narra a macabra prisão em que os detentos têm gravado na pele a sua sentença. O escritor novamente dialoga com a burocracia e inscreve um ambiente mórbido, beirando o expressionismo.
Crime e castigo – Fiódor Dostoievski
Um dos pilares da literatura mundial, Crime e castigo é a história do estudante Raskólnikov que, graças ao seu meio, comete um crime nas ruas de São Petersburgo. A sua salvação pode estar na teoria que criou para justificar seu ato. Os exemplos do pobre rapaz? César e Napoleão.
1984 – George Orwell
O ano é 1984 e a população é dominada por um partido que cria guerras para fomentar o lucro. As pessoas são proíbas de pensar e se relacionar com outras. Todos são vigiados pelo Grande Irmão. O partido possui o lema “Guerra é paz; liberdade é escravidão; ignorância é força”.
O Mercador de Veneza – William Shakespeare
A peça foi escrita entre 1596 e 1598 e conta os dias de um mercador do século XVI que precisa se livrar de uma dívida com um judeu. O caso vai a julgamento quando o comerciante deixa o coração como garantia de pagamento.
O Estrangeiro – Albert Camus
Mersault é um homem sem grandes qualidades, mas que se mantém alheio ao mundo que o cerca. A morte da mãe parece não tocá-lo. Sua única intensão é acabar com os trâmite burocráticos e voltar para casar para sair com a vizinha. O clímax do livro acontece quando Mersault mata um árabe em uma praia. A partir de então, o homem tem suas convicções testadas pela sociedade.
Laranja Mecânica – Anthony Burgess
Alex é um delinquente juvenil, capaz dos atos mais violentos. Depois de ser apanhado, o jovem é usado em um experimento de reabilitação. Aos poucos, Alex vai percebendo o ser humano que era e, como um ato de vingança, o passado retorna, mas, desta vez, ele próprio é a vítima.
Os Sofrimentos do jovem Werther – Johann Wolfgang von Goethe
A história de amor de Werther é também uma das mais trágicas, a ponto de causar uma onda de suicídio entre seus leitores. Considerado como o precursor do romantismo, Os Sofrimentos do jovem Werther é um dos pilares da literatura mundial.
Jonatan Silva - Contracapa
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